segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Alimentando ovelhas ou divertindo bodes?

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Por Thiago Azevedo no Bereianos

Em dias atuais esta é a pergunta que não quer calar. Ela não é recente, Charles Spurgeon, mais conhecido como o príncipe dos pregadores, teceu-a em um artigo disponível no site Monergismo (acessado em 22/09/2014).
Nunca se viu a igreja entretendo tanto o povo ao invés de pregar o evangelho, nunca se viu “pastores” que mais parecem animadores de auditórios ou comediantes de stand up comedy divertindo a massa. Nunca se viu tanta artimanha para atrair os bodes, e, enquanto isso, as ovelhas ficam numa dieta forçada, com pouco alimento consubstanciado e nutritivo – e em alguns casos, nem alimento tem. Estes líderes precisam entender conforme o velho jargão que há nos círculos cristãos “Comida de ovelha todo bode come, mas comida de bode, ovelha não come”.
Por que tanta preocupação em agradar os bodes, em atrair os incrédulos e em fazer o evangelho parecer algo divertido e pitoresco ao invés de alimentar as ovelhas em pastos verdejantes? Na atualidade, as igrejas realizam tantas festividades voltadas para o incrédulo que acabam se esquecendo das ovelhas que estão em seu ambiente. Em certa ocasião, tive acesso ao calendário anual de uma determinada igreja e lá constava mais cultos e festas voltadas para o lado de fora da igreja do que algo voltado para os fiéis daquela instituição. Não estou querendo dizer com isso que estas atividades externas não devam existir, mas a atenção maior, sem dúvida, deve ser dada aqueles que estão no lado de dentro da igreja, isso conforme o próprio texto bíblico de 1Tm 5:8. Deve haver uma preocupação primária com os da família da fé. A proposta mor destes líderes do evangelho humorístico e banalizado, voltado apenas para o incrédulo é a aliança com o mundo. Eles baixam o nível do evangelho para que este seja visto como acessível, retiram a exclusividade de Cristo da pregação, entendendo que isso cria uma barreira para os incrédulos. Omitem preciosas doutrinas bíblicas só para que o evangelho pareça algo diferente daquele que foi pregado pelos apóstolos e pais da igreja.

O reverendo Renato Vargens, em seu livro “Reforma agora”, mostra a gama de falsos apóstolos que proferem interpretações bíblicas, se gabando destas interpretações particulares serem mais valiosas que os ensinos dos próprios apóstolos. Recentemente, um líder religioso de uma dessas igrejas, que mais parece um grande picadeiro, teceu a seguinte frase: “Paulo não compreendeu o que Deus quis dizer nesta passagem, e eu irei mostrar a todos o que de fato Deus queria aqui”. Perceba o tom de superioridade e a carga maligna destas palavras. Comportamento bem distinto dos apóstolos de Cristo do primeiro século que, além de humildes, tinham as Escrituras como sendo sua base Jo 3:30 / 2 Tm 4:2. Por sinal, no texto citado de Timóteo a recomendação de Paulo é a pregação da palavra e não para contar piadas ou para entreter o povo. Inclusive, Paulo alerta o jovem pastor Timóteo dos tempos que surgiriam homens que iriam repudiar a sã doutrina e com coceiras no ouvido, segundo seus próprios desejos, juntarão mestres para si mesmos (2 Tm 4:3).

A gama acachapante de homens que desejam que os holofotes e todas as atenções estejam voltadas para eles é realmente surpreendente. O princípio de Jo 3:30 cai por terra. Em Ef. 4:11 as Escrituras relatam que Deus deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores. A Bíblia, em lugar nenhum, diz que Deus levantou um ministério do entretenimento ou da comédia, dando este dom a alguém – isso não passa de invenção do homem. Em certa ocasião, certo “pastor” pregou mais de 40 minutos e nem sequer a Bíblia abriu. Este homem contou toda sua história e trajetória de vida, aliando risadagem e contos engraçados. A plateia se deleitava enquanto eu voltava para casa – e eu ainda fiquei com fama de herege. Em outra ocasião, conversando com um amigo, este me disse que o verdadeiro pastor é aquele que abre a Bíblia, lê um texto, e depois disso fecha a Bíblia e prega com ela fechada. Em amor, lhe expliquei que isso não procede. A omissão da Bíblia é uma estratégia para que não se compare ou se avalie o que está sendo dito. Durante mil anos a humanidade sofreu com isso. O que muitas vezes contribui com este panorama é a própria falta de entendimento e ignorância do povo (Os 4:6). Pois, pautados pela a ideia de que julgar não é dever nosso, e este entendimento provém de uma interpretação pobre de Mt 7:1.

Alguns dão campo para atuação destes falsos mestres e, com isso, permitem que a igreja se torne um circo e uma fonte de entretenimento, direcionada mais para quem se encontra fora dos portões dela. A Bíblia nos traz vários textos que alertam acerca de falsos prodígios e sinais, mentiras e falsidade, são eles: (Mateus 24:4; 2 Coríntios 11:13-15; 2 Timóteo 3:13; Apocalipse 13:13-14; 16:13-14). Se acreditarmos na Bíblia, podemos esperar uma abundância de falsos milagres. Logo, como se deve avaliar se tudo isso é verdadeiro ou como se deve avaliar a postura de um líder? A resposta é JULGANDO DE ACORDO COM AS ESCRITURAS! João adverte para testar os espíritos em 1 Jo 4:1. Também adverte acerca daqueles que não são de Deus (1 Jo 4:6). Era mais ou menos o comportamento dos cristãos de Bereia (At 17:10-11) que examinavam o ensinamento de Paulo e de quaisquer outros pela Escritura. As Escrituras são o crivo, e não se o sujeito é ou não cômico ou promove entretenimento. O final do versículo 11 do texto supracitado diz que os cristãos de Bereia examinavam diariamente as Escrituras para ver se os ensinos procediam. Deve ser por isso que cada vez mais as igrejas estão se tornando verdadeiros parques de diversão e as ovelhas estão famintas e desnutridas, em paralelo, os bodes estão cada vez mais robustos e cevados pelo fato de serem alimentados constantemente.

Não há mais o costume de examinar as Escrituras e confrontar o que está sendo dito e o que está errado. De certa forma, há um regresso aos tempos medievais, vive-se na atualidade uma nova idade média, onde a Bíblia tem - cada vez mais - caído no esquecimento e na omissão. Isso é fruto da estratégia maligna de alguns líderes tendenciosos. Em Gálatas 1:8-9 Paulo diz que ainda que ele ou um anjo que venha do céu pregue algo diferente, seja este amaldiçoado. Como saberá se é diferente ou não? Por meio das Escrituras Sagradas. Em outras palavras, é como se Paulo estivesse dizendo que ele mesmo, o seu ensino, devia ser confrontado para ver se era ou não verdadeiro. Por que, na atualidade, não vemos os líderes fazendo esta proposta? Por que os pastores atuais não pedem para os fiéis procurarem na Bíblia onde constam estes tipos de ensino como: ungir objetos, dízimos astronômicos, correntes de fé, copo com água santificada ou vendas de objetos santos que transmitem graça? Ou ainda, por que os líderes da atualidade não pedem para os fiéis procurarem nas Escrituras onde existe o ensino de que é preciso fazer algo para alcançar a salvação? Muitos até têm atribuído graça salvífica a certos objetos. Ou seja, ou adquire e vai para o céu ou não adquire e vai para o inferno. É ou não é um medieval contemporâneo? Sim.

A resposta para as demais perguntas é a seguinte: Os “líderes e pastores” contemporâneos não pedem que os fiéis consultem a Bíblia à procura destas aberrações porque não há nenhuma passagem bíblica que corrobore com estes sacrilégios heréticos. Isso tudo não passa de ração para bodes, e este tipo de alimento ovelha não come. Na atualidade não se deve avaliar os líderes religiosos pelo o que os mesmos proferem, eles são adeptos de uma verborragia clássica, ou seja, dizem que amam as Escrituras, que creem na graça salvífica, que creem na justificação pela fé e na soberania de Deus na salvação. Mas, as práticas e as atitudes destes líderes os denunciam veementemente.

Há um dito puritano que se deve fazer uso no ambiente eclesiástico tupiniquim: “Aquilo que alguém faz fala mais alto que suas próprias palavras”. Alguns líderes têm um discurso bonito quanto às verdades bíblicas, mas os seus atos mostram que são filhos do Diabo. Estes líderes realizam campanha para que se alcance graça salvadora, uns ainda dizem que quem não contribui não vai para o céu e outros líderes chegam até a vender lugar no céu. Outros colocam um óleo perfumado em um patamar mais elevado que a própria oração etc. Estes líderes são, de fato, muito habilidosos quando o assunto é alimentar seus bodes e desprezar as ovelhas. Portanto, a convivência entre bodes e ovelhas não cessará tão cedo, os bodes podem muito bem se alimentar na comida das ovelhas – eles até gostam –, mas, infelizmente, alguns falsos pastores preferem privar as ovelhas de um bom alimento e alimentar tão somente os seus cabritos.

É por isso que as ovelhas andam desnutridas. Mas, com toda convicção, há pastos saudáveis e verdadeiros pastores que ainda se preocupam em alimentar suas ovelhas com alimento nutritivo, como fez o pastor do Salmo 23. Como ovelha, aconselho que haja uma procura por pastos saudáveis e por pastores comprometidos em alimentar primariamente seu rebanho, e, ao encontrá-los, possa de fato usufruir e se deleitar numa boa alimentação e num bom pastoreio, sobretudo, no Pastor dos pastores que se encontra na pessoa de Deus.

sábado, 27 de setembro de 2014

O Padrão Podre do Mundo é Aceito no Meio Cristão

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Por Claudio Morandi  em Estudos Gospel

E, entrando no templo, começou a expulsar todos os que nele vendiam e compravam,
Dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores. E todos os dias ensinava no templo; mas os principais dos sacerdotes, e os escribas, e os principais do povo procuravam matá-lo. E não achavam meio de o fazer, porque todo o povo pendia para ele, escutando-o. (Lucas 19:45-48)

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis,... (2 Timóteo 3:1).

Chegamos aos últimos dias. É o fim. Jesus está às portas. São tempos trabalhosos, difíceis, dias de engano e apostasia. É difícil SER cristão. O amor de muitos já esfriou e tantos já abandonaram o Evangelho, seguindo doutrinas de demônios. O joio já está no meio da plantação e já tem crescido e sufocado o trigo. O pecado há muito tem sido aceito no meio do povo cristão e tem recebido o nome de “tabu”, “preconceito”, “posição teológica”, ou, para os que querem aparentar-se mais espirituais: “minha revelação”.

A Palavra de Deus tem sido colocada em segundo plano. Caso o que Ela diga e estabeleça seja favorável ao desejo do coração, é tida como absoluta. Caso contrário, é desprezada, prevalecendo a opinião, o costume, o consenso daqueles que sempre estão prontos a apoiar o pecado, a bem da felicidade do corpo e da alma (Laodiceia). Há tantos “evangelhos”, tantos “cristos”, tantos quantos sejam suficientes para satisfazerem os gostos dos chamados “seguidores de Jesus” nestes dias.

O padrão do mundo penetrou de tal forma, que uma seleta minoria dentro de cada congregação realmente vive e procura viver com fidelidade a Palavra, não se importando com o que tem a perder, nem com as críticas da maioria que há muito já se assentou na roda dos escarnecedores. Se este cenário não representa o “como nos dias de Noé”, nada mais terá este poder. As famílias cristãs deixaram de ser referência de como se vive para a glória de Deus. Divórcio, recasamento, crises, falta de amor e perdão, filhos rebeldes, pais sem rédeas, maridos sem autoridade e mulheres cheias dela são comuns nas famílias que se auto-proclamam cristãs apenas porque frequentam reuniões que mais servem para cultuar o ego, a alma, do que a Deus (que não se satisfaz com a aparência). O relacionamento entre os solteiros é permeado pela carnalidade, impureza, lascívia, corpos entregues à prostituição (que hoje é gratuita). A santidade é relegada a algo do passado ou uma qualidade para poucos no presente.

Que tristeza! A televisão, com suas imoralidades, ataques frontais à Palavra, à credulidade e à fé tem recebido maciça audiência dos que se dizem seguidores daquele que “não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano”. As mulheres não se vestem mais de justiça, mas buscam seguir a última moda. Não bastasse o que se põe sobre o corpo, a preocupação de hoje é moldar o próprio corpo conforme os ditames da moda. O sentimento luciferiano é tão forte que o complexo de inferioridade, de feiura é comum nas mulheres (e já muitos homens) que se dizem seguidores de Cristo. Esqueceram-se que diante de Deus todos estão nus, desvendados e que Ele procura achar em nós vestes de justiça. Não tenha dúvida, é o fim.

Dentro em breve Jesus voltará a terra. Todavia “o juízo deve começar pela casa de Deus...”. E quem tem esperança na volta de Cristo (poucos estão vigilantes hoje), e cuja esperança seja fruto da obra do Espírito em sua vida, só tem uma atitude: buscar a purificação, a santificação (“aquele que tem esta esperança, a si mesmo se purifica”). Irmão, responda diante de Deus: - Por que escondes o pecado, porque ainda finges para os outros uma espiritualidade e um relacionamento com Deus que sabes não possuir?

- Por que ainda alimentas a mente com impurezas e coisas que não convêm a santos, assentando-se com os escarnecedores, ao vivo ou pela TV, internet, literatura ou músicas do mundo? Jesus está contigo nessas horas? Podes afirmar isto?

- Por que tua aparência é tão mundana? E por que te preocupas tanto com ela? O que adianta estar limpo o exterior do copo, estando sujo o interior? Por que cultivas tantos valores nascidos no coração do príncipe das trevas? Por que pensas em ganhar o mundo, sendo ambicioso, gastando tempo com coisas materiais para satisfação dos planos que você mesmo elaborou e relegas a segundo ou nenhum plano a tua vida com Deus e o teu serviço para Ele?

- Por que os que convivem contigo sequer deduzem que és cristão através de tuas atitudes ou se já sabem que és, não encontram em ti a vida de Cristo?

- Por que te contentas em ser apenas ouvinte da Palavra? Pensas que escaparás do Juízo de Deus dizendo aos outros que não façam o mal e tu mesmo praticando?

- Por que não ordenas a tua casa, homem, assumindo a posição delegada a ti por Deus, de ser cabeça e sacerdote? E tu, mulher, por que não te submetes a teu marido como ao Senhor? Quem cria os teus filhos? A babá, a tv, a escola, os parentes? São criados na doutrina e disciplina do Senhor? Por que murmuras? És uma operosa dona de casa ou achas que tal papel te diminui? Esqueceste que o Juiz sempre está perto e que sonda os corações?

- E tu, filho, por que insistes na desobediência, na independência, na desonra a teus pais? Respondes mal a teus pais? Retrucas, quando falam contigo? Esquecestes do Filho que foi obediente ao Pai até à morte e morte de cruz?

- Irmão, mentes no teu dia-a-dia? Dizes ‘não estou’ quando estás, ‘não fui eu’ quando foi, ‘não sei’ quando sabes? Dissimulas, inventa desculpas para não assumir tua responsabilidade? Não sabes que tais práticas procedem do maligno, que é o pai da mentira?

- Patrões, por que ainda sois injustos, grosseiros, sem misericórdia, usurpando o salário dos teus empregados? Não sabes que Deus tem pesado contra vocês todas estas coisas? Por que, empregados, sois desleixados, servis só na vista, falais mal das autoridades.

- Pastor, por que esquecestes de pregar e aplicar a Palavra? És mesmo pastor ou mercenário? Tua congregação está cheia de pecado, e tu te contentas com os números e a arrecadação financeira? Casas o divorciado? Aceitas os fornicários, chamados hoje de ’companheiros’ pela lei dos homens? Pensas mesmo que foste chamado para exibir tua oratória nas reuniões que promoves para agradar tua platéia? Esquecestes que o Juízo sobre ti será muito maior?

- Irmão, por que odeias o teu próximo? Não sabes que diante do Juiz tu és homicida? Por que cultivas a divisão e fazes questão de promovê-la onde estás? Falas mal de teus irmãos e líderes? Incitas outros contra Eles? Neste jardim és uma flor ou uma erva daninha?

Naquela cruz Cristo ao ser crucificado nos atraiu a Si, para nos fazer morrer nEle e ao terceiro dia nos deu a Sua própria vida, quando nos ressuscitou juntamente com Ele. Sem a morte do pecador no corpo de Cristo nunca haverá cristianismo verdadeiro, nunca! você já morreu com Cristo? A Bíblia é muito clara quando diz: "porquanto quem morreu está justificado do pecado" (Romanos 6:7).

Que o Espírito Santo revele a verdade em nosso coração. Amém!


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Vidas dignas do evangelho

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Por Mike Riccardi em Reforma 21 | Traduzido por Filipe Schulz

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo.” – Filipenses 1.27

Essa curta frase é o cerne da carta de Paulo aos Filipenses. A maior preocupação de Paulo em sua carta à igreja de Filipos é que eles alinhassem a prática de suas vidas à conformidade da posição deles como partilhantes do Evangelho de Cristo. Ao refletir nesse comando, duas implicações se tornam aparentes imediatamente.

Santificação é um fruto necessário da Justificação

A primeira implicação desse texto é que a santificação é um fruto necessário da justificação. Aquele que foi justificado pela graça por meio da fé em Cristo somente – aquele que foi declarado justo em sua posição perante Deus – irá crescer e progredir no que diz respeito à prática da justiça em sua vida. Isso é consistente com o testemunho do Novo Testamento, especialmente nas cartas de Paulo.
  • Após celebrar, por três capítulos, os maravilhosos privilégios da exaltada posição do cristão em Cristo, em Efésios 4.10 Paulo diz “Rogo-vos, pois” – isso é, visto que todos esses benefícios gloriosos são seus enquanto crentes em Cristo Jesus – “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”.
  • Em 1 Tessalonicenses 2.12, Paulo explica que pacientemente exortou e instruiu os tessalonicenses “para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória”.
  • Ele diz aos colossenses que sempre ora para “que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus”
Está em toda parte. Simplesmente não há categoria para um crente em Cristo que também não seja um discípulo de Cristo – não há um que tenha recebido Cristo como Salvador mas não o obedeça como Senhor.

Pense nisso dessa forma: Jesus não sofreu a fúria desenfreada da ira santa – Ele não sofreu a alienação de Seu próprio Pai que ele nunca mereceu passar – para libertar Seu povo da penalidade do pecado apenas para que vivêssemos escravizados a vários pecados para o resto de nossas vidas. Não, Deus graciosamente nos uniu a Seu Filho pela fé para que pudéssemos ser libertos desse tipo de escravidão ao pecado.

De fato, “Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Romanos 6.2). Não podemos! A resposta de Paulo é que pessoas mortas não pecam: “Fomos, pois, sepultados com ele [Cristo] na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida”. Veja, nossa união com Cristo pela fé significa que quando Ele morreu, nós também morremos para o pecado com Ele. Portanto, quando Ele ressuscitou, também fomos ressurretos para a vida com Ele. Por quê? Para que pudéssemos continuar andando de acordo com o padrão desse mundo? Não! Para que “andemos nós em novidade de vida”. Para que vivamos, em nossa prática, de uma forma que manifeste a realidade da nossa posição.

Veja bem, isso não significa que estamos livres da presença do pecado. Novidade de vida não significa perfeição. Isso não vai ocorrer desse lado da eternidade (Filipenses 3.12-14). Mas há um mundo de “meio termo” entre perfeição sem pecado e escravidão à nossas paixões e desejos carnais. Paulo diz em Romanos 6 que fomos libertos da escravidão do pecado e nos tornamos escravos da justiça (Romanos 6.18). Assim, por causa daquilo que Cristo alcançou em nosso favor em sua obra do evangelho, porque fomos declarados justos à vista do próprio Deus santo, porque as cadeias do pecado e da morte foram destruídas pela graça de Deus na obra de Cristo, podemos andar em liberdade. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Não vivamos então como escravos.

A busca pela santidade na vida do crente não é opcional. Hebreus 12.14 nos diz que há uma santidade prática sem a qual ninguém verá o Senhor.

Santificação é impulsionada pela graça do Evangelho

Então como podemos enfrentar essa luta? Isso nos leva à uma segunda implicação: a santificação é impulsionada pela graça do Evangelho.

Note, Paulo poderia ter escolhido qualquer coisa para começar essa seção de exortações e comandos aos filipenses. Ele poderia ter começado anunciando uma lista de novos “isso pode” e “isso não pode” para que eles seguissem. Ele poderia ter prescrito uma lista de hábitos a serem quebrados e hábitos a serem formados, e apenas dito a eles “façam!”. Ele poderia ter dado a eles um programa em 12 passos ou criado um sistema de parceiros de prestação de contas. Ele poderia tê-los feito se sentirem culpados até tentarem pagar Deus de volta por sua salvação dizendo algo como “Bom, como Cristo já fez tanto por vocês, o mínimo que vocês poderiam fazer é viver por Ele”. Mas ele não diz nada disso. Ele baseia todas as suas exortações à santidade na graça do próprio evangelho.

Ele os chama a considerarem quem eles já são, em Cristo, em virtude de sua união com Ele e o que Ele alcançou em seu favor. Ele os chama a considerarem que Deus já mudou nossa identidade e nos deu uma nova natureza. Deus já nos libertou da penalidade e do poder do pecado. E é na liberdade dessa graça que nós somos chamados  a sermos então quem somos – a andar na novidade da vida ressurreta para a qual fomos ressurretos graciosamente com Cristo para vivermos – para alinharmos nossa prática com o que Deus já declarou que somos por meio de Seu Filho.

Devemos perceber, então, que a luta cristã pela santidade não é lutada apenas com os punhos da autonegação, em que você esforçadamente cumpre seu dever enquanto amaldiçoa Deus em seu coração porque odeia toda a diversão que está perdendo. Não, no nível mais fundamental, a força para a luta pela obediência fiel vem do próprio Evangelho. Está em nós considerarmos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus (Romanos 6.11) – em considerarmos nós mesmos sermos quem realmente somos, e então viver a verdade do que já foi conquistado em nosso favor. Quando entendemos isso, deixamos de enxergar os mandamentos de Deus como um fardo e os vemos como a resposta natural de alguém cujas afeições foram renovadas.

O puritano escocês Henry Scougal, em seu livro A vida de Deus na alma do homem, articulou isso muito bem. Ele diz:
“O amor de um homem piedoso para com Deus e com sua bondade não é tanto em virtude de um mandamento que o ordena a fazê-lo, mas por uma nova natureza que o instrui e o leva a tal; nem ele paga suas devoções como um imposto inevitável, apenas para aplacar a justiça Divina ou calar sua clamorosa consciência; mas tais exercícios religiosos são emanações apropriadas da vida Divina, os empenhos naturais da alma renascida”.
Veja, se a vida Divina foi plantada em você pela regeneração do seu coração pelo Espírito, a luta pela obediência é simplesmente o agir conforme sua nova natureza. Então quando Paulo nos ordena a viver nossas vidas de forma digna do Evangelho, ele está nos mostrando que nossos esforços para a santificação são impulsionados pela graça do Evangelho.

Há uma maravilhosa rima que magistralmente captura a beleza da graça divina na santificação. Não se sabe com certeza o autor, mas normalmente é atribuída a John Bunyan:
‘Corra, John, corra!’, a lei a ordenar
Mas pés nem mãos me quer entregar
Melhores notícias o Evangelho a anunciar:
Asas me provê e me ordena voar!
Não caia na armadilha de enfatizar um ou outro desses dois pilares em detrimento do outro. Não trate a busca pela santidade como se fosse um item opcional da vida cristã. Santificação é um fruto necessário da justificação. E em sua honesta busca por se parecer com Cristo, viva na liberdade do conhecimento de que a santificação é impulsionada pela graça do evangelho.


Reforma21.org | Original aqui

sábado, 20 de setembro de 2014

Que pena!

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Havia um deus entre os amalequitas cujo nome era Moloque. Puseram na cabeça dele uma coroa que pesava mais ou menos 35 quilos. A coroa era de ouro e nela havia uma pedra preciosa. Quando o exército de Israel venceu os amalequitas, Davi tirou a pedra preciosa e a colocou em sua própria coroa (1Cr 20.2). Foi uma grande infelicidade, não só por causa da associação da pedra preciosa com a idolatria, mas especialmente porque aquele momento não era o momento certo para Davi aumentar por iniciativa própria a sua glória. Ele estava no pior momento de sua vida, quando se envolveu com uma mulher da alta sociedade, que morava nas proximidades do palácio e que era esposa de um dos generais de seu exército e um dos seus heróis. O escândalo foi de grandes proporções e multiplicador. O adultério levou o rei a tirar a vida de Urias de maneira cínica. Tudo foi feito debaixo dos panos para que ele mantivesse a reputação intacta. Aos dois primeiros pecados juntou-se o gravíssimo pecado da hipocrisia, que Jesus tanto condenava. Em meio a tudo isso, Davi teve a coragem de colocar mais uma pedra preciosa em sua coroa. Que pena!

Esse pouco conhecido lance da história coincide com o comportamento do rei Saul, seu antecessor e sogro. Quando Saul estava em plena decadência e pouco antes de cometer o absurdo de consultar uma cartomante e de perder todo contato com Deus, ele construiu por iniciativa própria um monumento em honra a si mesmo em Carmelo, uma cidade na região montanhosa de Judá (1Sm 15.12). Pouco tempo depois, o rei cometeria suicídio.

Honrar-se a si mesmo já é uma coisa errada e antiética. Quanto mais fazer isso estando em pecado!

Na liturgia do Apocalipse, há uma cena de extraordinária beleza. “Cada vez que os quatro seres vivos [o que parecia um leão, o que parecia um touro, o que parecia um ser humano e o que parecia uma águia] cantavam hinos de glória, honra e agradecimento ao que estava assentado no trono e que vive para sempre, os vinte e quatro líderes caíam de joelhos diante dele e adoravam.” Eles estavam tão extasiados pela glória de Jesus que, além dos joelhos dobrados e da adoração, eles “atiravam as suas coroas diante do trono e diziam: Senhor nosso e Deus nosso! Tu és digno de receber glória, honra e poder, pois criaste todas as coisas; por tua vontade elas foram criadas e existem” (Ap 4.9-11).

Entre colocar mais uma pedra preciosa em nossas próprias coroas e lançá-las diante do trono onde o Cordeiro de Deus está assentado, a diferença é enorme!

Fonte: Ultimato

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Aparência e Conteúdo

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Por Reinaldo Ribeiro em Estudos Gospel

“E eles, passando pela manhã, viram que a figueira se tinha secado desde as raízes.” (Marcos 11:20)

Indo de Betânia a Jerusalém, Jesus sentiu fome. Ao passar por uma figueira coberta de folhas bem verdes (aparência), aproximou-se para colher alguns figos. Vendo, porém, a mais absoluta ausência de frutos (conteúdo), Jesus “amaldiçoou” a figueira, condenando-a à improdutividade permanente. “No dia seguinte, de manhã bem cedo, Jesus e os discípulos passaram perto da figueira e viram que ela estava seca desde a raiz” (Marcos 11:20).

A explicação dada por Jesus, claramente, nada tem a ver com o fato de uma figueira secar, por não possuir fruto, o que poderia ser encarado com naturalidade em uma época que não era de colheita... Mas, de repente, Ele começa a explicar sobre a fé capaz de modificar as coisas. Mas qual seria a relação entre uma figueira amaldiçoada e a vida de fé, cheia de frutos, que o Senhor espera que tenhamos?

Tal como aquela figueira, muitos de nós conseguem impressionar e convencer à primeira vista. Nossas “folhas verdes” dão a aparência de viço, de vida, de robustez, o que não necessariamente implica em autenticidade e principalmente em produtividade.

Em tempos de números e estatísticas, ouvimos por todos os lados de índices que falam em crescimento da igreja. Alguns calculam que em duas décadas a maioria da população brasileira será evangélica. Mas seria isso suficiente para afirmarmos que a Obra de Deus está verdadeiramente arraigada e influenciando para o bem esta terra? Será que temos uma igreja comprometida com a humilde e serena verdade do evangelho? Será que essas multidões presentes em censos e pesquisas estão unidas pelo vínculo do amor e da fé? E será que como se foram um só coração dão testemunho real e com autoridade de Cristo através de suas próprias vidas? São perguntas vitais e que nos impelem a uma profunda reflexão.

Muitas vezes somos apenas corpos frequentadores de igreja, bocas que berram mecanicamente seus améns e aleluias, mãos ignorantes que carregam Bíblias que nunca são lidas, ternos e gravatas que escondem uma alma maculada por pecados clandestinos. Muitas vezes somos apenas folha verde – aparência – porém sem um único fruto verdadeiro de sincero compromisso com Cristo e Sua Palavra.

Nossa vocação, como cristãos, não é simplesmente oferecer abrigo, embaixo da folhagem verde dos nossos ramos. Nossa vocação, de tempo integral, é providenciar alimento para um mundo raquítico e desnutrido de Deus. Acima de tudo e acima das estações do ano, o cristão continua sua missão de realizar a obra de Cristo, isto é, de doar “vida com abundância”. O eterno é eterno porque é atemporal. A qualidade de nossa missão é eterna. Por isso, nunca devemos estar presos às limitações das estações, das culturas, das tecnologias ou dos modismos teológicos.

É bem verdade que folhas verdes são belas e dão boa impressão. Mas, para Deus, isso não basta. Não devemos ser apenas figueiras com folhas. Temos que ir além da aparência, temos que ter compromisso e conteúdo – temos que ser figueiras com frutos!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Seja o seu sim, sim, e o seu não, não

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Por Leandro da Silva Machado em Instituto Jetro

Através da Bíblia temos a oportunidade de conhecer o caráter, os princípios e os valores de Deus. Uma das coisas que Ele mais valoriza é a sua Palavra. Com o passar dos tempos, as pessoas tem deixado de dar importância às suas palavras. Cada vez mais, fazem uso de mentiras para conseguir promoções, status ou benefícios. Assim, acabam seguindo um curso totalmente contrário daquele desejado por Deus para nós.

Deus zela e valoriza sua palavra

Deus, em cada uma de suas atitudes, deseja nos ensinar algo. No livro de Gênesis podemos ler acerca da promessa que Ele fez a Abraão: "E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção" (Gn 12.2). "Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo" (Hb 6.13). Deus, após fazer a promessa a Abraão, mostrou o valor da sua palavra jurando por si mesmo. Na época do velho testamento, um juramento era uma invocação a Deus para que ele, o único que conhece os corações, testemunhasse a verdade, castigando o indivíduo que por acaso estivesse jurando falsamente. Deus empenhou a sua própria pessoa em sua promessa a Abraão. Deus mostrou a Abraão, e tem mostrado a nós também, que as palavras devem ser de honra e dignidade. Toda promessa deve ser cumprida, independentemente das circunstâncias.

Ainda que tudo mude à nossa volta, seja na área financeira, emocional ou espiritual, segundo o exemplo que Deus nos deu, devemos honrar cada uma das nossas palavras. Cumprir as nossas palavras não depende da fidelidade das outras pessoas, e sim da nossa, pois Deus, independente da nossa infidelidade, sempre permanecerá fiel para conosco. "...se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a Si mesmo" (2 Tm 2.13).

Imitando Deus

"Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados" (Ef 5.1). Ser imitador de Deus é muito mais do que dizer "sou crente" ou simplesmente ir ao culto. Ser imitador de Deus é ter exatamente as mesmas atitudes que Ele tem mediante as mais diversas circunstâncias. É valorizar aquilo que Deus valoriza: a palavra.

Homens e mulheres de uma só palavra

"Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno" (Mt.5.37). A Bíblia nos mostra de forma muito clara que devemos prestar atenção em cada promessa ou palavra que declaramos. Devemos ser homens e mulheres de apenas uma palavra, para que tenhamos crédito perante as pessoas e perante Deus. Quão desagradável é não poder distinguir se uma pessoa com a qual nos relacionamos está falando a verdade, ou se está mentindo.

Se você disse, eu acredito!

"De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10.17). Ao lermos esse versículo tão belo e poderoso, podemos tirar dele vários ensinamentos importantes para as nossas vidas. Quanto mais ouvimos a Palavra de Deus, mais o nosso coração se encherá de fé, pois temos a convicção de que tudo aquilo que Deus diz, Ele cumpre.

Entendemos, então, que o crédito que damos a uma palavra está diretamente ligado à pessoa que a declarou. Todo cristão verdadeiro precisa ter crédito em suas palavras. Este crédito, muitas vezes, demora a ser conquistado. Entretanto, ele pode ser perdido muito facilmente, basta uma "simples" mentira. "O justo odeia a palavra de mentira..." (Pv 13.5)

A mentira não deve fazer parte das nossas vidas, devemos possuir apenas uma palavra e honrá-la em qualquer circunstância. Assim como Deus, o justo odeia a mentira. O simples fato de uma palavra ter partido de nós, deve ser suficiente para que as pessoas acreditem nela. Caso isto não ocorra, precisamos rever nossas atitudes e buscar ganhar crédito para a nossa palavra.

"Pequenas mentiras"

Muitos pais, para não serem importunados por seus filhos pequenos, costumam resolver algumas questões aplicando-lhes "pequenas mentiras". À luz da palavra que acabamos de expor, mesmo essas questões, e principalmente essas, devem ser resolvidas falando-se a pura verdade.

Em primeiro lugar, toda mentira é procedente do Diabo. Ao mentir para o seu filho pequeno você estará agindo como um filho do Diabo. Em segundo, mais cedo ou mais tarde ele descobrirá que foi enganado e perderá a confiança em você. Em terceiro lugar, ele seguirá o seu exemplo mentindo para outras pessoas, porque julgará que essa é uma atitude normal. Por último, ele se tornará uma pessoa insegura em relação aos outros, desconfiando sempre de suas palavras. Portanto, vamos fazer direitinho a nossa lição de casa. Seja correto, e Deus certamente vai abençoar o seu lar.

Honre sua palavra!

Deus valoriza a sua Palavra e por isto sempre cumpre suas promessas. Como bons filhos de Deus, devemos honrar nossa palavra, assim como Deus o faz. O justo não tem prazer na mentira e sendo assim, possui apenas uma palavra e sempre a cumpre, custe o que custar.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

O que dizer sobre pecadinho e pecadão.

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Por PCamaral

Em uma conversa sobre assuntos bíblicos aqui em casa surgiu o gancho para que minha esposa citasse o que ela pensa sobre "graus de pecados". Isso porque não entra na cabeça dela que um pecado "pequeno" seja comparado com alguém, por exemplo, que matou uma pessoa. Nessas horas é certa a citação do versículo bíblico de Mateus 5: 19 - Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. - Dando assim, na interpretação dela, condições para crer que existem graus de pecados.

Para complicar temos ainda a citação de Tiago 2:10 - Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos. A questão levantada por ela é a seguinte: Como pode alguém que cometeu um "pequeno" pecado de, por exemplo, tomar o nome de Deus em vão, ser comparado e posta no mesmo patamar de um sujeito que assassinou uma pessoa e ser condenada da mesma forma por Deus? Essa foi a questão levantada na conversa. Pensando desta maneira, podemos até concordar que existam mesmo graus de pecado, e que pessoas praticam pequenos pecados e outras grandes pecados, ou pecadões, e que a maneira como serão castigados será diferenciada devido a gravidade do pecado cometido.

Sem entrar na interpretação e no contexto de cada versículo usado (isoladamente) como argumento passo a expor o meu entendimento sobre este tema, que é o seguinte: Não existem graus de pecados. Todos os pecados são punidos com a morte, "pois o salário do pecado é a morte" (Rm 6:23a).

Devemos entender que não é o nosso ponto de vista que é usado no julgamento mas a justiça de Deus, e que o principio usado por Deus é a obediência. Quando pecamos não está em julgamento se adoramos outros deuses, ou fazemos imagem de escultura, ou dizemos o nome de Deus em vão ou transgredimos qualquer um de seus dez mandamentos. Quando Tiago diz que "Qualquer que guardar a Lei (os 10 mandamentos) e tropeçar (transgredir, desobedecer) em um só ponto, tornou-se culpado de todos, ele está dizendo que não importa o grau de importância que eu, ser humano, dou a cada mandamento porque o que está em julgamento não é o mandamento é a obediência àquele que nos deu os mandamentos para obedecer.

Quando não honro meu pai e minha mãe desobedeço a uma ordem de Deus, cometo pecado, desobedeço Sua vontade soberana, mas no meu entendimento isso não é tão grave quanto matar uma pessoa. Mas não é isso que Deus está julgando. Deus está julgando nossa obediência. O principio é, e sempre será, a obediência, não para ser salvo, a obediência é um fruto, pois quem ama a Deus guarda os seus mandamentos (Jo 14:21). Sempre foi, desde o principio, e sempre será até o fim, tudo gira em torno da obediência, e Jesus nos mostrou isto na carne, pois foi obediente até a morte, e morte de cruz. (Fp 2:8)

Por este motivo quando alguém peca, não importa se furtou uma caneta, ou deu um falso testemunho, ou assassinou uma pessoa, para Deus esta pessoa pecou. Agora, se esta pessoa que pecou se arrepender de seu pecado, e orar e se desviar do seu mal caminho então Deus ouvirá sua oração dos altos céus e perdoará seu pecado, (2 Cr 7:14) mas ela terá de arcar com as consequências de seu ato, pois Deus perdoa o pecado mas não inocenta o pecador (Ex 34:7 - Nm 14:18). Uma pessoa que praticou um delito simples de furto ou alguém que cobiçou ou adulterou ou coisas deste tipo, se esta pessoa se arrepender e se chegar a Deus clamando arrependida por perdão será atendida e sua vida será restaurada. Mas aquela pessoa que matou outro ser humano, mesmo depois de confessado o pecado e pedido perdão, e de ser perdoada por Deus, terá de se entregar a justiça para pagar pelo crime que cometeu, pois, repetimos, "Deus perdoa o pecado mas não inocenta o pecador" (Ex 34:7 - Nm 14:18).

Esse é o meu entendimento sobre pecado e suas consequências. Diante de Deus, seja qual for o tamanho do nosso pecado nos faz culpados e passiveis de punição. Podemos nos arrepender de nossos pecados, confessá-los e pedir perdão a Deus mas isto não nos livrará das consequências desastrosas que qualquer tipo de pecado carrega consigo. Por isso a melhor coisa é "(...) não pequeis;". (1 João 2:1)

Meu querido, não caia na cilada do inimigo, lembre-se da desobediência do primeiro homem, o simples fato de tomar do fruto que Deus ordenou que não fosse comido trouxe consequências desastrosas para tudo o universo. Não existe pecadinho e pecadão assim como não existe "desobedienciazinha" e "desobedienciazão", essas palavras nem existem no dicionário . O que existe é obediência e desobediência.

Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus. (1 João 3:9)

Que Deus nos ajude sempre.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Liturgia e culto: reflexões à luz das Escrituras e da história cristã

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Por Alderi Souza de Matos em Revista Ultimato

A palavra liturgia soa estranha aos ouvidos de muitos evangélicos atuais. Para eles, esse termo sugere um culto excessivamente formal, rígido e sem vida, mero tradicionalismo herdado do passado. Daí a preferência em muitas igrejas por um estilo de adoração mais espontâneo e participativo, sem fórmulas pré-estabelecidas. No entanto, essa maneira de cultuar a Deus não está isenta de sérios problemas nos dias de hoje. O culto contemporâneo tem se desviado a tal ponto dos padrões bíblicos e históricos que muitos crentes estão começando a sentir a falta de uma liturgia mais reverente e disciplinada. A experiência cristã ao longo dos séculos é rica de ensinamentos sobre esse tema polêmico.

Igreja antiga e medieval

Os primeiros cristãos eram judeus e por isso o culto da igreja primitiva inspirou-se na liturgia das sinagogas. Nestas, após uma invocação inicial, eram recitados o “Shema” (credo baseado em Dt 6.4-9 e outros textos) e o “Tephilah” (conjunto de orações). A seguir, eram lidas passagens do Pentateuco e dos Profetas, seguindo-se uma exposição do texto. Também eram cantados salmos, especialmente o “Hallel” (113-118). Seguindo esse modelo, o culto cristão original foi extremamente simples, constando de orações, cânticos, leituras do Antigo Testamento e das “memórias dos apóstolos”, exortações pelo dirigente, coletas em prol dos carentes e celebração dos sacramentos, em especial a Ceia do Senhor, ou Eucaristia.

O Novo Testamento não apresenta uma descrição detalhada do culto (At 2.42-47), mas os estudiosos acreditam ter identificado materiais litúrgicos em diversas passagens. Um valioso relato do culto cristão no segundo século é encontrado na “I Apologia”, de Justino Mártir (c. 150). Nessa época, já haviam surgido fórmulas para certos elementos da liturgia, como as belas orações eucarísticas existentes em um antigo manual eclesiástico -- a “Didaquê”. Com o passar do tempo, a liturgia foi se tornando cada vez mais padronizada, sendo usada com pequenas variações em todas as igrejas. O culto tinha duas partes distintas: a Liturgia da Palavra, aberta a todos, e a Liturgia do Cenáculo, somente para os batizados.

Na Idade Média, o culto cristão tornou-se ritualístico e aparatoso, perdendo a simplicidade original. Surgiram práticas desconhecidas dos primeiros cristãos, como o uso de incenso, velas, orações pelos mortos e invocação dos santos e de Maria. A língua utilizada era o latim e o celebrante dava as costas para o povo, o que dificultava a comunicação e a compreensão do culto. O impacto sensorial e emocional da missa era profundo, sendo intensificado pela rica arquitetura e decoração dos templos. No entanto, havia pouca instrução bíblica e limitada edificação espiritual.

Atuação dos reformadores

As novas convicções teológicas introduzidas pela Reforma Protestante resultaram em uma profunda reformulação do culto e sua respectiva liturgia. O princípio da “sola Scriptura” fez com que a Bíblia passasse a ocupar um lugar muito mais destacado do que antes. O novo entendimento da salvação pela graça mediante a fé foi acompanhado de uma reinterpretação do sacramento da Ceia, visto não mais como um sacrifício oferecido pela igreja, mas como uma dádiva de Cristo ao seu povo. Por fim, a ênfase no “sacerdócio de todos os crentes” implicou maior participação dos fieis no culto a Deus. Agora, os pontos focais da liturgia eram o púlpito e a mesa da comunhão.

Foi interessante e até mesmo surpreendente a atitude dos reformadores em relação à antiga tradição litúrgica da igreja. Levando-se em conta as grandes rupturas que eles promoveram em relação à igreja medieval, seria de se esperar que também descartassem por completo a liturgia tradicional. Todavia, não foi o que fizeram. Os reformadores sabiam que eram herdeiros de quinze séculos de história cristã. Essa história não podia ser simplesmente esquecida como se não tivesse ocorrido. Por isso, eles reconsideraram somente aquilo que entendiam estar em conflito com as Escrituras, preservando tudo o que era bom e válido na herança do passado.

Martinho Lutero inicialmente apenas revisou a missa latina, não desejando “abolir completamente o serviço litúrgico de Deus”, e sim purificá-lo dos acréscimos indevidos. Mais tarde, elaborou a “Missa alemã” (1526), na língua do povo, para ser utilizada principalmente em regiões rurais. Ulrico Zuínglio (Zurique), Martin Butzer (Estrasburgo) e João Calvino (Genebra) também escreveram ricas liturgias para suas respectivas igrejas, nas quais a Ceia do Senhor ocupava um lugar proeminente. Sua ênfase no canto congregacional resultou em diversos saltérios -- coleções de salmos metrificados e musicados. Na liturgia de Genebra, Calvino buscou o equilíbrio entre orações extemporâneas e fórmulas litúrgicas.

Refletindo sobre o culto

Por culto entende-se o ato público de adoração a Deus realizado pela igreja. Como tal, tem um valor incalculável para os cristãos, sendo a manifestação mais visível e concreta da comunidade cristã. Liturgia vem do grego “leitourgia”, que significava o serviço público prestado por um cidadão. Cristianizada, a palavra passou a expressar o serviço espiritual a Deus e, mais especificamente, o conteúdo e a sequência das partes do culto cristão, caracterizado por diferentes graus da formalidade.

Por que os cristãos antigos elaboraram liturgias padronizadas para o culto? Em primeiro lugar, pela grande reverência que tinham por essa atividade tão sublime e elevada da igreja. O culto a Deus tinha de ser harmonioso e ordeiro, e a liturgia servia a esses dois propósitos. Não se podia permitir que o culto a Deus fosse improvisado ao bel-prazer dos dirigentes. Outro motivo foi a preocupação com a unidade da igreja. De que maneira a igreja poderia ter um senso de coesão se cada comunidade cristã cultuasse a Deus de um modo diferente? O fato de que todas as igrejas locais seguiam essencialmente os mesmos padrões de culto contribuía para esse valioso senso de comunhão e fraternidade.

Hoje, muitos evangélicos abandonaram por completo formas litúrgicas de culto. Talvez isso fosse inevitável, por causa das transformações do protestantismo e da sociedade. Todavia, chegou-se a uma situação em que, em nome da liberdade e da espontaneidade, o culto se desvirtuou em muitas igrejas, sendo marcado pela irreverência, superficialidade e preocupação prioritária com as necessidades humanas, e não com a glória de Deus. Com isso, muitos crentes estão buscando igrejas que valorizam os padrões bíblicos do culto e seguem a recomendação paulina à igreja de Corinto: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1Co 14.40).

Conclusão

A título de conclusão, vale lembrar os princípios propostos pelos reformadores suíços no que diz respeito ao culto:
  • a) precedente bíblico: sendo o culto uma atividade tão importante, Deus não deixaria de dar instruções precisas sobre ele em sua Palavra; nada deve ser feito no serviço divino que não tenha fundamento explícito nas Escrituras;
  • b) simplicidade: quanto mais complicado e espetaculoso for o culto, mais facilmente a atenção das pessoas será desviada de Deus para outros interesses;
  • c) reverência: é preciso cultivar atitudes de respeito, atenção e meditação diante de Deus;
  • d) teocentricidade: os objetivos principais do culto são a glória de Deus e a edificação dos fiéis, nessa ordem. Que Deus nos conceda sabedoria e discernimento a fim de ordenarmos o culto a ele atentando para as Escrituras e para os bons exemplos da história cristã.