quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Plano para uma família livre de pornografia

Nenhum comentário:



Por Tim Challies em Reforma 21

Eu sou pai de três filhos que são totalmente parte de uma era digital. Eles estão tão à vontade com iPods quanto eu estou com um livro e somente conhecem um mundo aonde quase todos nós temos os nossos celulares conosco o tempo todo, aonde o Facebook é um rito de passagem de um adolescente, aonde cada casa tem cinco ou dez ou vinte aparelhos que podem acessar o resto do mundo através da Internet. E mesmo assim eu sei dos perigos que se escondem, esperando fisgá-los.

Eu quero proteger meus filhos de um mundo assim, mas eu quero fazer mais que isso. Eu quero disciplinar meus filhos a viver virtuosamente, a usar essas novas tecnologias para um bom fim ao invés de mau. Eu creio que isto é uma parte crucial no meu chamado como pai. Para suprir essa necessidade, eu desenvolvi o que eu chamo de O Plano da Família Livre da Pornografia. É um plano desenvolvido para proteger meus filhos de perigos online para que assim eu possa treiná-los a usarem bem os seus aparelhos tecnológicos.

O PLANO DA FAMÍLIA LIVRE DA PORNOGRAFIA

Um plano completo precisa levar em conta três tipos de aparelhos:

Aparelhos fixos. Esses aparelhos serão usados somente em casa. Aqui nós temos computadores no escritório de casa ou Televisão com acesso à internet e consoles de jogos eletrônicos. Pais conseguem ter um nível significativo de controle sobre esses aparelhos.

Aparelhos móveis. Essas são os laptops, tablets, smart phones e outros aparelhos que podem ser usados em casa, mas também podem ser levados para fora de casa e usados em qualquer lugar. Pais tem um nível menor de controle sobre esses aparelhos.

Aparelhos de outras pessoas. Esses são os computadores que as crianças usam na casa de outras pessoas ou o tabletque outras crianças podem mostrar para os seus amigos. Pais tem controle zero sobre esses aparelhos.

Nisso tudo há dois objetivos maiores: Prevenir aqueles que querem achar pornografia e proteger aqueles que não querem achar, mas que podem se pegar expostos a isso, frustrar aqueles que querem ver pornografia e defender aqueles que não querem. E enquanto o plano é orientado especificamente a combater pornografia, também ira ajudar a lutar contra outros perigos online.

O Plano para uma família livre de pornografia consiste de 4 passos: Planejar, Preparar, Encontrar e Monitorar.

PLANEJAR

Você já deve ter ouvido a máxima: Se você falha ao planejar, você planeja falhar. A máxima se aplica bem ao o que estamos tentando alcançar aqui. Um plano de sucesso precisa incluir todos os aparelhos na sua casa que tenham acesso à Internet e uma tela. Então, mãos a obra.

Passo 1: Inventário

Você precisa saber exatamente quantos aparelhos podem ter acesso à internet na sua casa. Para fazer isso, você precisará fazer um inventário. Faça uma lista com todos os aparelhos que podem ter acesso à internet: computadores desktops, laptops, tablets, e smartphones. Não se esqueça do Playstation 3, Xbox, televisores com acesso à internet, Apple TV, iPods, e leitores digitais (de e-books). Até mesmo um leitor Kindle tem capacidade de fazer pesquisas básicas na rede. Recentemente uma família relatou que após fazer isso eles ficaram em choque ao saber que tinham 22 aparelhos no inventário.

Passo 2: Orçamento

Decida se você está disposto a fazer segurança da Internet uma despesa regular e recorrente todo mês. Antes gastava-se dinheiro para ter acesso à pornografia, hoje geralmente gastamos dinheiro para evita-lá. Apesar de haver opções gratuitas disponíveis, os melhores serviços tem um custo. Um orçamento de 20-25 dólares ( aproximadamente 45 a 65 reais) por mês permitirá que uma família a tire proveito do que há de melhor no mercado.

Passo 3: Aprender

Agora que você fez o seu inventário e tem uma melhor compreensão de quantos aparelhos o seu plano precisará levar em conta, é hora de aprender sobre as opções disponíveis que existem para proteger aqueles que os usam. Há quatro extensas categorias de proteção:

Filtragem: Filtragem proativa detecta e bloqueia certos conteúdos ilegais ou indesejáveis. (exemplos: se seu filho faz uma pesquisa na internet por “garotas nuas”, irá bloquear a pesquisa; se a sua criança por engano clicar em um link para uma página de um site de pornografia, irá bloquear o acesso ao site.).

Prestação de contas. Accountability software rastreia web sites visitados por diferentes aparelhos e então prepara e entrega relatórios regularmente. (exemplo: Se seu filho visitar um website pornográfico ou tentar fazer uma pesquisa por “garotas nuas”, o Accountability software irá detectar e incluir isto em um relatório que será enviado para o seu e-mail.).

Controle dos Pais. Controle dos Pais é o bloqueio certas funções de aparelhos modernos (exemplo: previne o uso de um navegador da internet em um iPOd Touch, previne o uso do aplicativo do Facebook em um tablet.)

Comunicação: Nós não podemos contar com a tecnologia para resolver todos os nossos problemas, então o plano deveincluir constante, comunicação franca e aberta.

Nenhuma dessas categorias oferecem proteção completa, então o plano inteligente deve usar uma combinação de todos os quatro. O Plano para uma família livre de pornografia usa as seguintes ferramentas:
  • OpenDNS. OpenDNS utiliza filtragem para bloquear automaticamente sites censuráveis ​​para cada dispositivo conectado à sua rede doméstica. Ele é ativado através de uma pequena alteração nas configurações do seu roteador existente.
  • Covenant Eye. Covenant Eye rastreia os sites visitados por seus computadores e dispositivos móveis e envia relatórios via e-mail; ele também oferece filtragem opcional que pode ser configurada especificamente para cada membro de sua família.
  • Parental Controls. Parental controls permite que os pais possam desativar certas funções nos aparelhos.
  • Reuniões. A ferramenta mais indispensável é a comunicação regular, livre, deliberada entre os pais e seus filhos.

Passo 4: Discutir

Antes de você executar o plano, talvez seja uma boa idéia fazer uma reunião com a sua família para explicar o que você está prestes a fazer e o que você espera alcançar com isso. Você irá abalar sua família ao estabelecer regras que irá impactá-los, por isso seria sábio discutir essas coisas com eles.

PREPARAR

Vamos começar a colocar esse plano em ação. Isso levará algumas horas, então disponha de tempo, faça um cafezinho pra você e mãos a obra!

Passo 1: Crie Senhas

Senha Master: No topo da lista está criar uma senha máster. Todo o seu plano irá falhar se você escolher uma senha ruim ou fracassar em protegê-la. Faça isso bem feito (algo que seja difícil de adivinhar e que combine letras com números) e certifique-se de armazená-la em algum lugar seguro se você não está certo de que vai se lembrar dela. Você talvez também precise criar uma senha máster de 4 dígitos para aparelhos celulares.

Senhas da Família. Você também precisará criar uma senha para todas cada pessoa em sua casa. Crie senhas que serão fáceis para eles se lembrarem, mas difícil para os outros adivinharem. Todos os filhos precisam saber sua própria senha e somente sua senha. Certifique-se de guardar essas senhas em algum lugar seguro. Se seu filho usa celular, você também precisar criar uma senha para o seu filho – geralmente códigos de 4 dígitos. Mais uma vez, certifique-se que você saiba esses códigos e guarde-os em um lugar seguro.

Passo 2 : Cadastrar-se e Cria Contas

Com suas senhas no lugar, é hora de se cadastrar para os serviços que você irá utilizar. OpendDNS. Começaremos por instalando o OpendDNS. Visite OpenDNS (www.opendns.com) e procure pelo Parental Control Solution (Solução de Controle dos Pais). OpeDNS Family Shield (Protetor Familiar OpenDNS) é um ótimo lugar para se começar (Outra opção é o Home VIP OpenDNS, uma solução de primeira qualidade e custa 19.95 dólares ao ano). Crie um conta de usuário para você usando sua senha master. Dê uma olhada em outras opções de filtragem e instale aquelas apropriadas para sua família. Independentemente do que você estabelecer aqui, isso será aplicado a todos os aparelhos que acessam a internet pela sua rede mãe.

Nota: é melhor instalar o filtro para bloquear mais coisas do que menos, e liberá-las se e quando você achar que esteja bloqueando muitos sites.

Covenant Eyes. Você instalou a sua filtragem; agora é hora de instalar o seu software de prestação de contas. Visite Covenant Eyes (www.covenanteyes.com) e crie uma conta usando sua senha máster. Adicione cada membro da sua família como usuário e use a senha que você criou para cada um deles.

Registre cada usuário para monitorar a prestação de contas e ter os relatórios enviados ao seu endereço de e-mail a cada 3 a 7 dias. Escolha um nível de prestação de contas adequado à idade e maturidade de cada um.

Se você quiser ter uma filtragem específica para um usuário, além da filtragem geral com OpenDNS, configure isso também. Escolha um nível de filtragem apropriado à idade e maturidade de cada pessoa. Também pode ser sábio desativar o acesso à Internet durante determinados períodos (Exemplo: Desabilitar todo o acesso à Internet para os seus filhos depois das 21:00 e antes das 7:00).

Nota: É melhor definir o filtro e prestação de contas para bloquear e denunciar mais e relaxar nos níveis de filtragem somente se e quando ele estiver “pesado”.

Computadores. Agora você precisa criar contas de usuário em cada um dos seus computadores e laptops e tablets (se eles permitem múltiplos usuários).

Para cada computador em sua casa, você terá de criar uma conta para cada pessoa que o usa. Isto significa que se há cinco pessoas na sua família e que cada uma usa o computador da família, você terá de criar cinco contas, uma para cada um deles.

Crie uma conta para si mesmo usando a senha master e configure para você privilégios de administrador.

Em seguida, crie uma conta de usuário para cada membro da família usando a senha que você criou para eles; certifique-se que eles não tenham privilégios de administrador.

Deixe-me dar um aviso: Este passo pode ser trabalhoso, especialmente se você tiver vários computadores. Persevere!

Passo 3: Instale o Software

Agora que nós criamos todas as contas, podemos instalar e ativar o OpenDNS e Covenant Eyes.

Instale o OpenDNS no seu roteador. OpenDNS é ativado com uma simples mudança no roteador da sua casa e administrado por uma interface online em www.opendns.com. Você terá que se dirigir a OpenDNS para aprender como mudar as instalações necessárias. Assim que você fizer isso, sua filtragem será ativada. Simples assim, você já começou a proteger a sua família.

Instale Covenant Eyes em todos os laptops e desktops da sua casa. Visite www.covenanteyes.com, entre na sua conta, baixe o software apropriado, e instale-o. Entre em cada conta em cada computador e se assegure de que o software Covenant Eyes está funcionado corretamente (procure pelo ícone “o olho aberto”).

Aparelhos de celular. Se você tiver decidido permitir o acesso de navegador em seus celulares, instale o navegador Covenant Eyes (normalmente, visitando uma loja de aplicativos e baixando o aplicativo). Nota: Se você deseja ter Covenant Eyes em seus celulares, você também vai precisar usar o Parental Controls (veja abaixo) para bloquear o acesso a qualquer outro navegador nesses dispositivos.

Consoles de Jogos. Remover o acesso do navegador de Internet em todos os consoles de jogos. Considere também remover o acesso ao YouTube, Netflix e outros sites de vídeo.

Outros dispositivos. Volte ao seu inventário e veja quais outros dispositivos que você precisará considerar. Seu plano só será forte quando atingir o seu ponto mais fraco.

Passo 4: Aplicando o Parental Controls

Instale Parental Controls em todos os celulares. Para que isso seja eficaz nos aparelhos dos seus filhos, você precisará definir uma senha de controle dos pais e usar essa senha para garantir que somente você tenha acesso aos controles parentais. Aqui estão as configurações que eu recomendo para os aparelhos utilizados por crianças:

Assegure que os aparelhos travem assim que não estiverem em uso.

Desligue navegador de web. Se seus filhos precisarem navegar na web, instale o navegador Covenant Eyes e use o Controle dos Pais para bloquear todos os outros navegadores.

Desligue a capacidade de instalar novos aplicativos sem introduzir a sua senha.

Desligue a capacidade de mudar a própria senha deles ou informações da conta.

Considere desligar Facebook, Twitter e outros aplicativos de mídia social (já que esses aplicativos têm, frequentemente, um navegador embutido que lhes permitirá visitar sites enquanto ignorando todos os softwares de prestação de contas).

Considere desligar o acesso a câmera se você estiver preocupado que o seu filho possa fazer um mau uso da mesma. Seja especialmente cauteloso com aplicativos que combinem mídia social com câmera (Snapchat, Instagram, etc). Parabéns! Você conseguiu. Você sabe quais são os aparelhos que você tem em casa e você lidou com cada um deles ao instalar filtros e o software de prestação de contas. Só há um problema: Todos na sua família estão chateados com você! Então agora é o momento para aquela reunião em família.

REUNIÃO

Nós tendemos a crer que problemas causados pela tecnologia podem se resolvidos com mais tecnologia. Entretanto, mais forte, melhor e duradouro do que a melhor tecnologia que há, é o caráter. A reunião da família é onde você discutirá e enfatizará a importância de um crescimento de caráter.

Eu sugiro ter uma reunião de família para discutir o sistema, e frequentes reuniões individuais com seus filhos para fazer perguntas especificas e pedir um retorno especifico.

Passo 1: Reunião de família

O conteúdo da reunião de família irá depender em certo grau da idade dos filhos. Aqui estão algumas ideias para pontos de discussão:

Por causa do seu interesse do bem estar deles, você tomou algumas atitudes para protegê-los enquanto eles usam a internet. Explique que você não vê seus filhos como criminais ou viciados em pornografia, mas que você espera protegê-los de perigos da rede. Dependendo da idade dos seus filhos, talvez essa seja uma boa hora para explicar que há tantas pessoas que sofrem com pornografia que existe a possibilidade de que um dia eles irão enfrentar a tentação também.

Privacidade. Seus filhos – e especialmente os mais novos – não devem ter nenhum expectativa de privacidade quando eles usam os seus aparelhos. Eles devem saber que você tem a liberdade de checar os aparelhos sem a permissão deles e que tudo que eles fizerem online irá gerar um relatório que você irá monitorar. Você esta fazendo isso com o objetivo de ama-los e protegê-los.

Senhas. Todos devem saber a importância das senhas e que você espera que eles protejam a deles. Eles não devem compartilhar suas senhas com seus irmãos ou com seus amigos.

Prontidão. Você precisa falar com seus filhos sobre segurança na internet fora de casa. Converse com eles sobre o que fazer se eles estão acessando aparelhos em casas de outras pessoas. Explique a eles o que devem fazer se alguém lhes mostra material pornográfico ou qualquer outra coisa inadequada.

Mamãe e papai. Se vocês tiverem decidido que também irão manter o padrão e que irão usar software de filtragem e accountability (algo que eu recomendo!), Este é um bom momento para explicar para as crianças.

Passo 2: Reuniões individuais

Pais e seus filhos terão um beneficio tremendo por conversarem regularmente sobre os perigos online e suas preocupações. As conversas irão variar muito dependendo da idade e nível de maturidade da criança. Aqui estão algumas perguntas que você deve pensar em fazer:

Você tem se sentindo tentado em pesquisar por coisas que você não deveria na rede?

Você sabe se seus amigos estão vendo pornografia e falando sobre isso?

Você viu pornografia desde a última vez que nós conversamos?

Eu creio que você tenha se preparado para algum tipo de rejeição e frustração, especialmente no começo. Seus filhos provavelmente irão descobrir que eles não poderão acessar certos tipos de sites ou que eles precisão colocar senha onde antes eles não era necessário.

Sua esposa poderá descobrir que ela não poderá acessar certos tipos de site que ela quer.

Persevere, e resolva cada problema assim que ele surgir.

MONITORE

O plano está em vigor, e sua família agora esta se beneficiando de um certo nível de proteção. Mas esse não é um plano que você simplesmente começa e deixa seguir o seu curso. Ele requer monitoramento e manutenção.

Covenant Eyes Reports. Covenant Eyes irá enviar relatórios regularmente. Não espere que esses relatórios sejam tão uteis quanto você gostaria. Você ira precisar de tempo – dois ou três minutos – para analisar cuidadosamente o relatório procurando por qualquer coisa que pareça errada. Acompanhe qualquer um dos seus filhos que o relatório tenha mostrado uma bandeira vermelha.

Relatório OPenDNS. OPenDNS também recolhe relatórios, incluindo páginas e pesquisas que tenham sido bloqueados. Enquanto você não descobre quem é responsável por esses bloqueios, seria bom ficar de olho neles, para procurar padrões, e assim por diante.

Ajuste. À medida que seus filhos crescem você pode achar que precisará ajustar seus privilégios. Você também descobrirá que, à medida que eles crescem, enfrentam maiores tentações que exigirá menos privilégios.

Mantenha. Covenat Eyes atualiza o seu software regularmente. À medida que eles fazem isso, você deverá instalar as novas atualizações.

CONCLUSÃO

E este é o plano para uma família livre de pornografia. Levará algumas horas de trabalho duro para instalar, mas é um tempo bem investido.

Mesmo assim esse não é um plano infalível – nenhum plano é infalível. Haverá maneiras de contornar isso para aqueles empenhados em encontrar esses caminhos. . Covenant Eyes ocasionalmente irá bloquear alguma coisa que não seja perigosa; OpenDNS as vezes irá falhar em filtrar algo que obviamente deveria ter sido bloqueado.

Mesmo assim o plano será eficaz para a maioria das famílias na maioria dos casos. Você esta no caminho certo para ensinar e proteger seus filhos.

Leia a Parte 1 aqui.

Traduzido por Alessandra Brotto e gentilmente cedido pelo site Mulheres Piedosas | original aqui

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sméagol, pornografia e a volta para casa

Nenhum comentário:



Davi Chang Ribeiro Lin em Ultimato Revista

O livro “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, descreve um antigo hobbit, Sméagol, que se transformou em Gollum, uma criatura horrível. Ele possuía um tesouro antigo adquirido quando ainda habitava na luz: um anel belo e brilhante que o fazia invisível. Sméagol manteve o anel escondido em uma caverna porque era o presente que ele amava, seu “precioso”. Depois de tanto viver nas trevas, a solidão e a traição acharam espaço: seu coração escureceu-se, o anel corrompera o coração dele.

Assim como é o efeito do anel descrito por Tolkien, é o efeito da pornografia no século 21. Ela é a descoberta de um anel precioso que carrega sementes de destruição. A pornografia toca em um ponto central da nossa humanidade -- o desejo por beleza --, mas cria a obsessão pelo anel do poder. Ela carrega a exigência legítima por beleza e intimidade, mas desvirtuada em fechamento e fantasia. Nesse drama epidêmico, muitos sofrem por não viverem na luz. A internet e a televisão fomentam o desejo pelo anel brilhante da sexualidade desconectada. As “ring girls” (garotas-anéis) se oferecem como presente e fazem antigos Sméagols desenvolverem corações de Gollum.

Porém, ao contrário deste personagem, tenho visto homens e mulheres lutando contra a pornografia e aprendendo que é possível viver na luz. Quando eu estudava teologia no Canadá, conheci grupos de ajuda e esperança para pessoas viciadas.1 O caminho proposto é árduo, mas recompensador. Assim como na jornada dos hobbits Sam e Frodo -- que juntos eram chamados a entregar o anel -- em um caminho de sacrifício e autodoação, o grupo propõe partilha, confissão e encorajamento. Como no caso de Frodo, ninguém aniquila o anel sozinho, mas precisa de outros hobbits.

Um desses peregrinos era um homem que percebeu que, se não parasse de ver pornografia, já que seremos aquilo que estamos nos tornando hoje, o caminho findaria em traição. Procurou ajuda e até pensou em desistir por continuar caindo. A esposa dele o tem perdoado e ele tem avançado, recusando-se a ceder em seus pensamentos, cuidando para retomar sempre.

Outro coperegrino cresceu na igreja, mas desde menino vivia uma vida dupla, cheia de lascívia. Adotou como lema de sua vida: “Ninguém vai saber disso” e escondeu o problema da esposa. Anos depois, foi descoberto. Na dor do recomeço, que incluía a confissão semanal em um grupo de ajuda, ele compreendeu a graça de Deus não como conceito, mas como o motor da vida. Ele estava redescobrindo o evangelho. Escolheu um estilo de vida saudável, prestando atenção em seus pontos fracos. Ao colocar limites, como tirar a TV e a internet de casa ou não ficar sozinho quando estava vulnerável, aprendeu a cuidar da sua fragilidade. Hoje coordena grupos que abençoam outras pessoas e tem dado uma resposta a partir da sua fraqueza. Ele tem nos lembrado que cristãos viciados em pornografia são como filhos pródigos amados pelo Senhor e, por isso, chamados de volta para casa, à transformação, em virtude da comunhão com Jesus.

Acredito que nosso problema não é só a pornografia, mas a sociedade que estamos criando. Temos uma geração que não aprendeu a permanecer no relacionamento. Na solidão, afirmam a busca por intimidade em uma fantasia. A luta contra a pornografia, assim como a jornada de entrega em “O Senhor dos Anéis”, é uma história de retorno para a realidade relacional. Ao renunciarmos o atraente anel dourado, abraçamos o caminho de volta ao condado, onde a beleza e a esperança fluem dos relacionamentos.

Nota

1. Existem hoje na América do Norte organizações que ajudam na restauração da integridade sexual, como a livingwaters.com. No Brasil, formamos um grupo em Belo Horizonte: integridade.grupo@gmail.com

Davi Chang Ribeiro Lin, 30 anos, é psicólogo e pastor da Comunidade Evangélica do Castelo, em Belo Horizonte, MG. É mestre em teologia pelo Regent College, Vancouver, Canadá.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O deserto e a liberdade

Nenhum comentário:



Ricardo Barbosa de Sousa em Ultimato Revista

Não é sem motivo que Deus, logo após libertar o povo da escravidão no Egito, os conduziu para o deserto. A passagem pelo deserto era necessária para ajudá-los a deixar para trás a mentalidade da escravidão e a compreender a nova liberdade que Deus lhes estava oferecendo. Quando damos o nosso sim a Deus, ele sempre nos conduz ao deserto.

O nosso deserto não é igual ao das areias do Neguev ou do Saara. Nosso deserto é o lugar onde somos levados a refletir sobre nossas ilusões, as expectativas infantis que nos mantêm alienados, inclusive de pessoas que amamos; os medos que mascaramos ou sublimamos em nossa busca frenética por realização e entretenimento. No deserto, não temos um caminho claro e seguro, nenhuma distração, nada que nos excite. Nele, o futuro é incerto, nos vemos vulneráveis e fragilizados, e experimentamos a força das trevas interiores do medo.

Por outro lado, o deserto é o lugar do encontro com Deus, da rendição do orgulho e da ilusão de sermos senhores do nosso destino. É o lugar da companhia divina, do silêncio diante de Deus, onde a quietude nos ajuda a reconhecer a presença dele. O silêncio que nos torna mais atenciosos à voz de Deus. Para sermos livres, precisamos nos afastar, por um tempo, do mundo dos homens para entrarmos, a sós, no mundo de Deus. Um tempo no qual as paixões, tensões, pressa, vão, lentamente, cedendo espaço para percebermos a realidade à luz da eternidade e restabelecermos o valor correto das coisas. No deserto, reduzimos nossas necessidades àquilo que é essencial.

A enfermeira americana Bronnie Ware escreveu um livro sobre os “cinco maiores arrependimentos ou lamentos de pacientes terminais”. Depois de acompanhar por vários anos estes pacientes, ela listou aquilo que eles gostariam de ter feito e não fizeram, como: ter mais tempo para os amigos e não ter trabalhado tanto. O deserto deles trouxe uma outra dimensão de suas reais necessidades.

Na solidão do deserto, descobrimos a suficiência da graça de Deus. Teresa de Ávila (1515--1582) descreveu num poema sua experiência no deserto:

Nada te perturbe,
Nada te espante.
Tudo passa.
Deus não muda.
A paciência tudo alcança.
Quem tem a Deus,
Nada lhe falta.
Só Deus basta.

Nossa necessidade primeira é Deus. De tudo o que aprendemos no deserto, a lição mais importante é que aquilo de que mais necessitamos encontramos na comunhão com Deus. A experiência do deserto nos conduz ao autoesvaziamento, ao desapego dos ídolos que nos oferecem a falsa segurança, e à completa submissão a Deus e aos seus caminhos. Aprendemos a ver a vida desde a perspectiva da eternidade, o que nos ajuda a colocar em ordem nossos valores.

A verdadeira liberdade nasce do deserto. Foi no deserto que Jesus reafirmou a identidade dele e seguiu livre para realizar a missão dele em obediência ao Pai. Não precisou usar nenhum artifício para se autopromover. Foi livre para fazer o que tinha de fazer, assumir a cruz e, no fim, morrer. O deserto nos liberta dos falsos deuses, das mentiras e ilusões que nos fazem pessoas controladoras e manipuladoras. Rompe com a falsa sensação de que temos controle sobre o nosso destino. O deserto nos torna pessoas mais verdadeiras, livres, e mais conscientes de nossa total dependência de Deus.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A Estratégia Mundial de Satanás

Nenhum comentário:



Por Renald E. Showers — Israel My Glory |  Via portal Chamada

Deus entregou à humanidade o domínio sobre a terra e estabeleceu a teocracia como a forma de governo original deste mundo (Gn 1.26-29). Numa teocracia, o governo divino é administrado por um representante. Deus designou o primeiro homem, Adão, para ser Seu representante. Adão recebeu a responsabilidade de administrar o governo de Deus sobre a parte terrena do Reino universal de Deus.

Pouco tempo depois de ter dado esse poder ao homem, Satanás induziu Adão e Eva a se aliarem a ele em sua revolta contra Deus (Gn 3.1-13). Como resultado, a humanidade afastou-se de Deus e a teocracia desapareceu da face da terra. Além disso, com a queda de Adão, Satanás usurpou de Deus o governo do sistema mundial. A partir de então, ele e suas forças malignas passaram a governar o mundo. Conforme veremos a seguir, muitos fatores revelam essa terrível transição.

A Negação da Revelação Divina

O diabo tinha autoridade para oferecer o domínio sobre o sistema do mundo a quem ele quisesse, inclusive a Jesus Cristo, pois essa autoridade lhe tinha sido entregue por Adão (veja Lc 4.5-6). Foi por isso que Jesus chamou Satanás de “príncipe [literalmente, governador] do mundo” (Jo 14.30). João disse que o mundo inteiro jaz no maligno (1 Jo 5.19) e Tiago declara que todo aquele que é amigo do atual sistema mundano é inimigo de Deus (Tg 4.4).

Até este ponto de nossa história, o reinado de Satanás sobre o mundo tem ocorrido de forma invisível. Trata-se de um domínio espiritual que incentiva o surgimento de cosmovisões e filosofias contrárias à verdadeira realidade. As Escrituras nos ensinam que, no futuro, Satanás irá tentar converter esse domínio espiritual e invisível em um reino político, visível e permanente – dominando o mundo inteiro. Para alcançar seu objetivo, Satanás precisa induzir a humanidade a buscar a unificação sob um governo mundial. Ele também tem de condicionar o mundo a aceitar um governante político supremo que terá poderes únicos e fará grandes declarações a respeito de si mesmo.

Utilizando-se da tendência secular e humanista da Renascença e de algumas ênfases propagadas pelo Iluminismo, o diabo conseguiu minar a fé bíblica de porções importantes do protestantismo e também determinadas crenças do catolicismo romano e da Igreja Ortodoxa. O resultado foi que, no final do século XIX e no início do século XX, o mundo começou a ouvir que a humanidade nunca havia recebido a revelação divina da verdade.

No entanto, o único modo pelo qual a existência de Deus, Sua natureza, idéias, modos de agir, ações e relacionamento com o Universo, com a Terra e com a humanidade podem ser conhecidos é através da revelação divina da verdade. Por isso, a negação dessa revelação fez com que durante o século XX muitas pessoas concluíssem que o Deus pessoal, soberano e criador descrito na Bíblia não existe; ou, se existe, que Ele é irrelevante para o mundo e para a humanidade.

Essa negação da revelação divina da verdade resultou em mudanças dramáticas, que tiveram graves conseqüências na sociedade e no mundo. Em primeiro lugar, ela levou muitas pessoas ao desespero. Deus criou os seres humanos com a necessidade de terem um relacionamento pessoal com Ele, para conhecerem o sentido e propósito supremos desta vida. A declaração de que Deus não existe ou é irrelevante provocou um vazio espiritual dentro das pessoas. Esse vazio levou ao desespero e à extinção da perspectiva de alcançar o sentido e propósito supremos desta vida. Satanás, então, ofereceu a bruxaria, o espiritismo, o satanismo, outras formas de ocultismo, a astrologia, o misticismo oriental, os conceitos da Nova Era, as drogas, algumas formas de música e outros substitutos demoníacos para preencher esse vazio e fazer com que as pessoas sejam influenciadas por ele.

A Negação dos Absolutos Morais

A negação da revelação divina da verdade resultou também na negação dos absolutos morais. O argumento mais usado é: se os padrões morais não foram revelados por um Deus soberano que determinou que os indivíduos são responsáveis por suas ações, então os absolutos morais tradicionalmente aceitos foram criados pela humanidade. Assim sendo, uma vez que a humanidade é a fonte desses absolutos, ela tem o direito de rejeitar, mudar ou ignorá-los.

O resultado dessa racionalização falaciosa é que a sociedade acabou testemunhando uma tremenda decadência moral. Ela passou a rejeitar a ideia de que apenas as relações heterossexuais e conjugais são moralmente corretas, passando a desprezar e ameaçar cada vez mais os que defendem essa ideia. Movimentos estão surgindo em todo o mundo para redefinir legalmente o conceito de matrimônio e para forçar a sociedade a aceitar essa nova ideia, a abolir ou reestruturar a família e proteger a propagação da pornografia.

O assassinato de seres humanos parcialmente formados (aborto) já foi legalizado em muitos países. Algumas pessoas ainda insistem em dizer que não existe questão moral nenhuma envolvida no suicídio assistido, na clonagem humana e na destruição de embriões humanos em nome da pesquisa de células-tronco. O assassinato e a mentira passaram a ser aceitos como norma. Essa falência moral ameaça as próprias bases da nossa sociedade.

A Negação da Verdade Objetiva e de Seus Padrões

A negação da revelação divina da verdade resultou na conclusão de que não existe uma verdade objetiva que seja válida para toda a humanidade. Cada indivíduo seria capaz de determinar por si mesmo o que é a verdade. Assim sendo, aquilo que é verdade para uma pessoa não é, necessariamente, verdadeiro para outra. A verdade passou a ser algo subjetivo e relativo.

A racionalização nos levou à conclusão de que não há padrão objetivo pelo qual uma pessoa seja capaz de avaliar se algo está certo ou errado. Agora ninguém mais pode dizer legitimamente a outra pessoa que algo que ela está fazendo é errado. Seguindo essa racionalização, nunca se deve dizer a outra pessoa que seu modo de vida é errado, mesmo que, vivendo dessa maneira, ela possa morrer prematuramente. Também não será permitido que alguém diga a um adolescente que o sexo não deve ser praticado antes do casamento. Afinal de contas, ninguém tem o direito de impor seus conceitos de certo ou errado sobre os outros.

Essa negação da verdade objetiva e do padrão objetivo de certo e errado é propagada através de uma “redefinição de valores” promovida por escolas, por universidades, pela mídia, pela internet, por várias publicações, por alguns tipos de música e pela indústria do entretenimento como um todo. Algumas universidades, inclusive, já adotaram uma política que abafa qualquer expressão do que é certo ou errado por parte de seus alunos e professores. Esse tipo de atitude resulta em censura e intolerância.

A negação da verdade objetiva e dos padrões objetivos de certo e errado motivaram alguns a defenderem que os pais devem ser proibidos de bater nos filhos quando estes fizerem algo que os pais acreditam ser errado.

A Redefinição da Tolerância

Isso tudo também resultou em um movimento que visa forçar a sociedade a aceitar um novo conceito de tolerância. A visão histórica da tolerância ensinava que as pessoas de opiniões e práticas diferentes deveriam viver juntas pacificamente. Cada indivíduo tinha o direito de acreditar que a opinião ou prática contrária à sua estava errada e podia expressar essa crença abertamente, mas não podia ameaçar, aterrorizar ou agredir fisicamente aqueles que discordavam dele.

Porém, a tolerância passou por uma redefinição. O novo conceito diz que acreditar ou expressar abertamente que uma opinião ou prática de uma pessoa ou de um grupo é errada equivale a um “crime de ódio” e, portanto, deve ser punido pela lei. Grupos poderosos estão pressionando o Congresso americano, por exemplo, para fazer com que esse novo conceito torne-se lei. Isso ocorrerá se for aprovado o que passou a ser conhecido como “lei anti-ódio”. Uma vez que nos EUA já existem leis contra ameaças ou prejuízos físicos causados a pessoas ou grupos de opiniões e práticas distintas, é óbvio que o objetivo desse projeto é tornar ilegal a liberdade de crença e de expressão. Se esse projeto for aprovado, os EUA passarão a ser mais um Estado totalitário, comparado àqueles que adotaram a Inquisição e o comunismo. [Tendências semelhantes se verificam na maior parte dos países ocidentais – N.R.]

Já que o mundo foi levado a acreditar que não há verdade objetiva válida para toda a humanidade e nenhum padrão objetivo que sirva para verificar se algo está certo ou errado, cada vez mais defende-se a ideia de que todos os deuses, religiões e caminhos devem ser aceitos com igualdade. Por isso, todas as tentativas de converter pessoas de uma religião para outra devem ser impedidas e as afirmações de que existe apenas um Deus verdadeiro, uma religião verdadeira e um único caminho para o céu são consideradas formas visíveis de preconceito. O pluralismo religioso está se tornando lugar-comum hoje em dia.

Se não há nenhum padrão objetivo para determinar o certo e o errado, então qual base uma sociedade ou um indivíduo pode usar para concluir que matar é errado? Isso incluiu os assassinatos praticados por médicos que fazem abortos ou os massacres provocados por psicopatas em escolas e em lugares públicos? Pois, talvez alguns desses atos violentos sejam resultantes do fato de seus autores terem concluído que, se não existe um padrão objetivo para determinar o que é certo e o que é errado, para eles é correto assassinar.

Se essa espécie de lei anti-ódio for aprovada, ela terá conseqüências drásticas. As pessoas que virem esse tipo de lei sendo posta em prática acreditarão que esse é o caminho correto. Mas, durante as campanhas eleitorais e nas sessões legislativas, os políticos poderão fazer acusações uns aos outros ou dizer que as ações dos seus oponentes são erradas?

O Desejo de Unidade

A negação da revelação divina da verdade gerou uma crescente convicção de que o objetivo da humanidade deve ser a unidade. 
O Manifesto Humanista II diz:  Não temos evidências suficientes para acreditar na existência do sobrenatural. Trata-se de algo insignificante ou irrelevante para a questão da sobrevivência e satisfação da raça humana. Por sermos não-teístas, partimos dos seres humanos, não de Deus, da natureza, não de alguma deidade. [1] 
O argumento prossegue: Não somos capazes de descobrir propósito ou providência divina para a espécie humana... Os humanos são responsáveis pelo que somos hoje e pelo que viermos a ser. Nenhuma deidade irá nos salvar; devemos salvar a nós mesmos. [2] 
À luz do pensamento de que a salvação da destruição total depende da própria humanidade, o Manifesto continua: Repudiamos a divisão da humanidade por razões nacionalistas. Alcançamos um ponto na história da humanidade onde a melhor opção é transcender os limites da soberania nacional e andar em direção à edificação de uma comunidade mundial na qual todos os setores da família humana poderão participar. Por isso, aguardamos pelo desenvolvimento de um sistema de lei e ordem mundial baseado em um governo federal transnacional. [3]
Finalmente, o documento declara: O compromisso com toda a humanidade é o maior compromisso de que somos capazes. Ele transcende as fidelidades parciais à Igreja, ao Estado, aos partidos políticos, a classes ou raças, na conquista de uma visão mais ampla da potencialidade humana. Que desafio maior há para a humanidade do que cada pessoa tornar-se, no ideal como também na prática, um cidadão de uma comunidade mundial? [4]

A existência de instituições internacionais, como a Corte Internacional de Justiça e as Nações Unidas, os meios de transporte rápidos, a comunicação instantânea e a internacionalização crescente da economia fazem com que a formação de uma comunidade mundial unificada pareça ser possível. O tremendo aumento da violência, incluindo a ameaça de terrorismo que paira sobre todo o mundo, pode levar a civilização a uma governo mundial unificado em nome da sobrevivência.

A Deificação da Humanidade

A negação da revelação divina da verdade criou uma tendência em deificar-se a humanidade. Thomas J. J. Altizer, um dos teólogos protestantes do movimento “Deus está morto” da década de 60, alegava que, uma vez que a humanidade negou a existência de um Deus pessoal, ela deve alcançar sua auto-transcendência como raça, algo que ele chamava de “deificação do homem”.[5] O erudito católico Pierre Theilhard de Chardin ensinava que o deus que deve ser adorado é aquele que resultará da evolução da raça humana.[6]

Com tais mudanças iniciadas com a negação da revelação divina, Satanás está seduzindo o mundo para que caminhe em direção à unificação da humanidade. Ela ocorrerá quando todos estiverem sob um governo mundial único que condicionará o planeta a aceitar seu líder político máximo, o Anticristo, o qual terá poderes únicos e alegará ser o próprio Deus.



Notas:

1 - Humanist Manifesto II, American Humanist Association [www.americanhumanist.org/about/manifesto2.html].
2 - Idem.
3 - Ibidem.
4 - Ibidem.
5 - John Charles Cooper, The Roots of The Radical Theology, Westminster, Philadelphia, 1967, p. 148.
6 - Idem.

Extraído de Revista Chamada da Meia-Noite agosto de 2002

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Poder da Ressurreição de Cristo

Nenhum comentário:



Por Dave Hunt

A oração de Paulo pelos crentes efésios é muito específica. Ele pede a Deus que lhes dê um entendimento e conhecimento mais profundo acerca de Cristo, e seria bom se buscássemos o mesmo para a nossa vida. Isso não é algo que se possa aprender num seminário ou mesmo num estudo bíblico ou na leitura de livros devocionais. O desejo de Paulo era que eles recebessem de Deus, voluntariamente, o “espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17-23).

Especificamente, Paulo ora para que eles conheçam a “suprema grandeza” do poder que Deus queria demonstrar na vida deles. A explicação de Paulo sobre esse assunto é muito esclarecedora. Paulo nos fala sobre esse poder em Filipenses 3. Esse poder era, de fato, o que ele tanto desejava para si mesmo. Ele o chama de “o poder da sua ressurreição” e declarou: “Para o conhecer, e o poder (dynamis) da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.10-12).

Será que Paulo estava em dúvida quanto à sua salvação, achando que talvez não estivesse qualificado para a ressurreição dos crentes no Arrebatamento? Dificilmente! Ele está nos dizendo que a Ressurreição não é apenas um evento histórico do qual nos lembramos com satisfação e alegria, mas também o maior acontecimento da história (passada, presente e futura) de todo o cosmos! O maior evento de todos os tempos no universo é também um dos mais difíceis de entender. Nós falamos sobre esse acontecimento de uma forma extremamente trivial, mas ele é o pivô em torno do qual toda a história se articula e que a dividiu para sempre em duas partes. A divisão do tempo não deveria ser apenas a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo); deveria ser a.R. (antes da Ressurreição) e d.R. (depois da Ressurreição).

Diante dos telescópios e dos meios tecnológicos de que dispomos hoje para aparentemente esquadrinhar os mais remotos cantos do universo, as palavras de Davi no Salmo 19 assumem um significado ainda mais profundo: “Os céus proclamam a glória de Deus [...]”. A Criação é a maior expressão visível de poder, e nós nos curvamos em espanto e adoração quando pensamos no Deus infinito que está por trás de tudo o que se pode ver. Mas Paulo diz que isso não é nada em comparação com o poder demonstrado na Ressurreição de Jesus Cristo, e esse é o grande poder que Paulo queria que os efésios experimentassem diariamente.

De fato, Paulo nos diz que a Ressurreição é a maior prova do poder de Deus jamais apresentada e cuja grandeza não pode ser superada. Precisamos entender o porquê dessa afirmação e por que Paulo orou daquela forma. Afinal de contas, “A vida estava nele [em Cristo]” (Jo 1.4). Jesus disse: “[...] tenho poder para a dar [minha vida] e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (Jo 10.18, ARC). Então, por que foi necessário um poder tão grande para ressuscitar Cristo dentre os mortos?

Durante sua vida na terra, e antes de sua própria ressurreição, Cristo havia ressuscitado muitos dentre os mortos. Mas aqueles a quem ele ressuscitou, como Lázaro (Jo 11.1-43) e o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-16), morreram novamente após alguns dias ou anos para aguardar a ressurreição de todos os crentes no Arrebatamento.

Como o Doador da vida, por intermédio de quem foram criadas todas as coisas (Jo 1.3), poderia ser morto? Temos aqui uma aparente contradição. Foi Cristo mesmo quem disse, a respeito de sua vida: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou” (Jo 10.18). Entretanto, Pedro acusa os judeus de terem matado Jesus: “vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23). Dirigindo-se ao conselho rabínico, Estêvão usa uma linguagem ainda mais forte: “do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos [...]” (At 7.52).

O motivo pelo qual foi necessário usar o maior poder jamais aplicado a fim de ressuscitar a Cristo dentre os mortos só pode estar associado ao tipo de morte que Ele morreu. Deus havia declarado que a penalidade para o pecado é a morte, que é a eterna separação de Deus. Mas será que esse castigo não é forte demais? Adão e Eva foram expulsos do jardim paradisíaco por seu Criador (que os havia colocado ali) por causa de uma infração aparentemente pequena: comer um determinado fruto. Isso é motivo para um castigo eterno?

Nós tratamos o pecado com muito descaso, vendo apenas o ato em si e esquecendo contra quem ele é cometido. O pecado de Adão e Eva não foi apenas comer o fruto proibido. Foi desafiar e se rebelar deliberadamente contra Aquele que havia criado não só a eles, mas a todo o universo. Na nossa perspectiva, o pecado de Davi – adultério, assassinato e mentira – foi muito mais condenável. Mas Davi sabia o que era o pecado: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos” (Sl 51.4).

Em sua essência, o pecado é uma traição intencional, uma rebelião clara e desafiadora contra o Criador e Governador do universo. Precisamos nos lembrar desse fato. A maioria dos cristãos que, ao serem convencidos pela consciência, caem com o rosto em terra e confessam seus pecados, não está realmente confessando o horror do que fizeram. Não basta se arrepender dos atos praticados. É preciso confessar também que, não importa quão trivial nos pareça o ato que praticamos, o que nós fizemos foi repetir a traição de Adão e Eva contra o Senhor Deus. Se não reconhecermos isso com convicção profunda no coração, a confissão será incompleta.

Agora, começamos a entender por que foi necessária “a suprema grandeza do seu poder” (Ef 1.19) para ressuscitar a Cristo dentre os mortos. O escritor de um hino disse com muita propriedade: “Foi o enorme fardo dos nossos pecados que te deitou no túmulo, ó Senhor da vida”. O que quer dizer isso? Como poderiam os nossos pecados ser lançados sobre o Cristo sem pecado? Isso certamente não foi feito quando Pilatos condenou a Cristo, nem quando os ímpios soldados romanos O açoitaram e O pregaram numa cruz. Contudo, foi isso que o filme antibíblico A Paixão de Cristo (de Mel Gibson) retratou – e o filme foi elogiado por milhares de evangélicos, entre eles centenas de líderes.

O que realmente aconteceu na Cruz não só não poderia ser retratado num filme como, ao ser omitido, foi negado por ele. Isaías escreveu: “Todavia, ao senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado” (Is 53.10). Claramente, o que os homens fizeram com Cristo não teve nada a ver com o Senhor moê-lo e fazer de Sua alma um sacrifício pelo pecado. O pecado tem uma dimensão moral e espiritual que Cristo teve que suportar por todo indivíduo, e nenhum outro poderia fazê-lo.

O nosso Salvador não tinha que ser apenas perfeitamente sem pecado para poder pagar pelos pecados dos outros – ele tinha que ser infinito. Ninguém, a não ser Deus, poderia satisfazer a justiça dessa forma. Mas a sentença havia sido pronunciada contra a humanidade. Portanto, Deus, apesar de infinito, não poderia pagar essa pena, a não ser que se tornasse totalmente homem sem deixar de ser Deus. Por isso a necessidade do primeiro e único nascimento virginal.

Os ateus alegam que seria injusto um inocente pagar pelos culpados. Isso seria verdade, não fosse por outra dimensão da Cruz. Para os que crêem, Deus considera a morte e a ressurreição de Cristo como se fosse a deles. Todo aquele que crê sofre uma milagrosa transformação interior que foi prometida por Cristo e que Ele chamou de “nascer de novo” (Jo 3.3-16). Isso não é um clichê, é a realidade.

Pilatos não tinha idéia do que estava dizendo quando apresentou Cristo à multidão agitada: “Eis o homem!” Aquele era o homem como Deus queria que fosse. Paulo o chamou de “o segundo homem” e de “o último Adão” (1 Co 15.45,47). Em outras palavras, desde Adão – criado pela mão de Deus no Jardim, sem contaminação – até Jesus, o último Adão – formado no útero de uma virgem, sem contaminação – não havia ninguém de quem se pudesse dizer: “Eis o homem como Deus queria que fosse”.

“O enorme fardo dos nossos pecados”, que teria mantido a humanidade no Lago de Fogo para sempre, poderia ser suportado pelo Ser infinito na Cruz, onde Ele se colocou entre Deus e o Homem. Se a Justiça Infinita não tivesse sido satisfeita através do pagamento integral dos nossos pecados efetuado por Cristo, Ele não poderia ter saído daquele sepulcro.

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15.19-20).

A penalidade para o pecado é ser banido eternamente da presença de Deus e de todo o seu universo e lançado no exílio no Lago de Fogo. Não haverá como fugir da verdade que eles rejeitaram e que os atormentará eternamente. Davi afirmou: “Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás” (Sl 139.8). Nenhum ser finito poderia pagar a penalidade exigida pela infinita justiça de Deus. Nenhum ser humano que tentasse pagar por seus próprios pecados poderia dizer finalmente, como exclamou Cristo em triunfo na Cruz: “Está consumado! A dívida foi paga”. Mas o preço tinha que ser pago integralmente. De que outro modo os portões da justiça se abririam?

Os cristãos têm um papel fundamental na derrota final de Satanás: “Eles, pois, o venceram [a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás – Ap 12.9] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Com o amor de Cristo em nosso coração, seguimos o exemplo que Ele mesmo deixou para nós: “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pe 2.21-25).

Satanás continua a entrar na presença de Deus desafiadoramente, como fazia na época de Jó. Como podemos ter certeza disso? Pelo fato de que ele ainda acusa os irmãos diante do trono de Deus dia e noite, e continuará fazendo isso até o fim (Ap 12.10). Como já dissemos certa vez, e sempre é bom repetir, Satanás é como um presidente no fim do mandato. Ele ainda pode andar livremente pelos corredores do poder e tem bastante influência por trás dos panos. Ele ainda não foi expulso do céu, mas esse dia está chegando:

“Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos” (Ap 12.7-9).

Como Satanás será expulso no final? Existe um velho hino que expressa com simplicidade e beleza o que a Escritura retrata: Em fraqueza, como um derrotado, Ele conquistou a coroa da vitória; Permitindo que pisassem nele, colocou todos os nossos inimigos sob seus pés. Ele abateu o poder de Satanás; Feito pecado, derrotou o pecado. Curvou-se ante o sepulcro, destruiu-o também; e, ao morrer, matou a morte.

Satanás não consegue entender como Cristo, com brandura e aparente fraqueza, pôde triunfar sobre ele. Ele fica confuso com tudo que diz respeito à Cruz. Primeiro, ele inspirou Pedro para impedir Cristo de ir para a Cruz: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.21-22). Sabemos que Satanás inspirou Pedro por causa da resposta de Cristo: “Arreda, Satanás!” Depois, ele inspirou Judas para entregar Jesus aos rabinos para que eles pudessem conseguir Sua crucificação: “Entrou nele Satanás” (Jo 13.27). Até hoje, Satanás não entendeu nada.

“Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

Na minha opinião, Satanás realmente acha que pode sair vencedor dessa batalha pelos corações e mentes da humanidade. E por que não? Ele oferece exatamente aquilo que treinou o homem para cobiçar: riqueza, bens, prazer hedonista, sexo livre, popularidade, fama, drogas e álcool em abundância, satisfação de todos os seus desejos sensuais. Mas, apesar disso, multidões preferem seguir a Cristo, embora Ele ofereça o ódio e a rejeição do mundo, com perseguição e sofrimento – mas também a eternidade em sua presença, onde há felicidade verdadeira: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

E o que acontece com os que fazem a escolha errada e preferem juntar-se a Satanás em sua traição? Deus não tem prazer em castigar os perversos (Ez 33.11), mas a punição de cada um é de acordo com seu crime. Quando lemos o que os líderes ateus dizem a respeito de Deus em flagrante e desafiadora rebeldia, temos certeza de que eles arrancariam Deus de Seu trono se pudessem. Eles odeiam a Deus. Sem dúvida, o tormento eterno no Lago de Fogo por causa de sua traição será a colheita daquilo que eles mesmos semearam.

Veja o que disse Richard Dawkins, líder do movimento do Novo Ateísmo, num debate com John Lennox, um cristão fervoroso e também professor de Oxford, cientista com dois Ph.D.s e que, em seu comentário final, deu testemunho de sua fé em Cristo e na ressurreição de nosso Senhor:

“Sim, bem, esse pedacinho final” – disse Dawkins, com os lábios encurvados de desprezo, a voz gotejando veneno – “entrega o jogo todo, não? Toda aquela história de ciência e física... tudo isso é muito grandioso e maravilhoso, e então, de repente, voltamos à ressurreição de Jesus. Isso é tão insignificante, tão trivial, tão local, tão sem imaginação – tão indigno do universo”.

Mas, para Deus, a Ressurreição foi a maior demonstração de Sua majestade e poder. Que lamentável exibição do ódio mortal que corrói Dawkins! Esse pagão, que obviamente adora a criação ao invés do Criador (Rm 1.21-23), está espumando de raiva. Essa manifestação de seu ódio a Deus vai zombar dele eternamente (Pv 1.20-33), enquanto os céus ressoarão com o eterno mas sempre renovado hino de louvor a Deus e ao Cordeiro: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”.



Obs: Este texto foi publicado originalmente no portal em Chamada.com (Este é o link original). O portal Chamada foi reformulado e o link não está funcionando.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Não existem cristãos arrogantes

Nenhum comentário:


Por Mauricio Zágari em Apenas

A arrogância é uma doença espiritual maligna e silenciosa. Um dos efeitos dessa moléstia é que, em geral, o arrogante se acha a pessoa mais humilde do mundo - ele não se vê como verdadeiramente é. Constantemente aponta os erros dos outros mas não consegue perceber como a sua essência está contaminada - e, se consegue, tem a arrogância de dizer que não é arrogante. Lá vai bem longe o tempo de servos como Francisco de Assis, João da Cruz, Thomas-à-Kempis e outros homens de Deus verdadeiramente humildes. Hoje está totalmente disseminado o conceito antibíblico de que é possível ser arrogante e ser um bom cristão. Não é. É absolutamente impossível ser um homem segundo o coração de Deus e ser arrogante ao mesmo tempo. São características que não cabem no mesmo indivíduo.

Arrogância é sinônimo de orgulho, altivez, soberba, prepotência. Mostre-me um arrogante e lhe mostrarei um homem sem Deus. Esse é um pecado tão grave que o salmista diz ao Senhor em Salmos 5.5: "Os arrogantes não permanecerão à tua vista". Em 2 Timóteo 3.1-2, o apóstolo Paulo fala sobre o perfil dos homens nos últimos tempos: "Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes...". Sim, o olhar altivo do arrogante é um dos defeitos que Deus mais detesta, como Salomão deixa claro em Provérbios 6.16-19.

É fácil diagnosticar alguém que sofre de arrogância. Comece procurando uma pessoa que se acha especial. Diferente. O escolhido. O "cristão" altivo tem essa pretensão, achar que tem em si algo tão singular que Deus o separou do resto da humanidade. Pois os verdadeiramente separados pelo Senhor para realizar grandes feitos simplesmente os executam, não ficam fazendo alarde disso, e se mantêm com uma extraordinária postura de humildade (é só ver o caso do rei Davi). De certo modo, há em todo arrogante um pouco de nazista: ele se acha praticamente membro de uma linhagem superior, um ariano, eleito pelos céus para mostrar à humanidade errada que ele é quem está certo.

Essa é outra característica sempre e sempre presente no arrogante: ele se acha o dono da verdade. Se alguém discorda dele é porque é ignorante, atrasado, desinformado, rebelde, não foi tão iluminado por Deus, não entendeu as realidades do alto ou qualquer coisa do gênero. Isso acontece porque a arrogância cega. Ela não deixa o arrogante se ver como tal. Assim, qualquer verdade fora da sua verdade é inverdade. E ele trata quem dele discorda como culpado de uma suposta ignorância proposital. Discordar do arrogante é visto por ele praticamente como uma ofensa. Até porque, no seu entendimento, as outras pessoas existem em função dele.

Lamentavelmente, o "cristão" arrogante em geral ganha discípulos. No caso do arrogante carismático, arrebanhará multidões, que se tornarão seus seguidores cegos - fãs tão fanáticos que não suportam ouvir uma crítica a seus ídolos. Hitler foi assim. Temos os nossos hitlers hoje em dia, líderes orgulhosos e altivos, que se tornam deidades das massas. Seu carisma atrai os incautos para a armadilha e a arrogância enterra seus seguidores, ao ser tomada como modelo e padrão aceitável. Em vez de uma triste doença, a soberba dos tais é vista e exaltada como uma qualidade, um sinal de força e posicionamento. Aos olhos de muitos, até como unção. Só que não passa da mais maligna e destrutiva soberba: "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda" (Pv 16.18). E há, por outro lado, os arrogantes sem carisma, que se impõem em geral por seus cargos, fazem poucos discípulos sinceros - os que nele de fato creem acabam reproduzindo a mesma arrogância. Seja o arrogante carismático ou não, tornar-se um discípulo dele é altamente prejudicial: "Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança e não pende para os arrogantes" (Sl 40.4).

O arrogante geralmente se prende a títulos e cargos para legitimar-se. Esteja ele em que grau da hierarquia estiver. "Sabe com quem está falando? Eu sou o diácono aqui", empavona-se. Não se contenta em ser quem é, precisa do reconhecimento e do garbo. Sem adjetivos a sua arrogância sente-se ofendida. É por isso que nascem entre nós tantos "patriarcas", "apóstolos", "ungidos do Senhor", "doutores em divindade", "profetas de Deus". "vice-deus" ou o que for - o arrogante em geral se esforça mais por obter títulos do que empreender realizações. Enquanto o mais importante e preeminente dos humildes contenta-se em ser chamado de "Zé", se for o caso, o arrogante exige para si títulos acessórios, que ficarão pendurados em seu nome como penduricalhos na farda de um velho general.

Mas, por mais que receba o louvor alheio, o arrogante não se contenta com isso - precisa de mais. Pois realmente acredita que merece mais - afinal, ele é um escolhido de Deus. Daí surgem os impérios eclesiásticos, as empresas evangélicas de um homem só, as capitanias hereditárias gospel, as catedrais mundiais de qualquer coisa. E, para pôr tais empreendimentos de pé, o arrogante se coloca acima do bem e do mal: faz associações em jugo desigual para ter mais poder, dá propinas para ver avançar seus sonhos pessoais, cria falsas campanhas espirituais como forma de arrecadar dinheiro... enfim, faz o que for preciso para que seus projetos avancem - e sempre tem uma boa desculpa para justificar-se de que aquilo não é pecado. Peca porque, afinal, está fazendo para o Reino. Só que, na verdade, está fazendo para si mesmo.

Não há arrogantes admiráveis - pense nos homens de Deus que você admira e, se enxerga neles altivez e prepotência, sugiro que deixe de admirá-los - pois não são tão homens de Deus assim. Só continua a admirar arrogantes, após se dar conta de que são arrogantes, quem admira a arrogância. E não se pode admirar a arrogância e Jesus ao mesmo tempo.

A arrogância foi o pecado que fez aquele que ficava ao lado do Senhor no Céu tornar-se Satanás. Não bastava ele ser querubim da guarda ungido, permanecer no monte santo de Deus, andar no brilho das pedras. É interessante reparar o caminho de corrupção que ele percorre, de anjo a demônio. No início, "perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado", só que, aos poucos, "se achou iniquidade" nele. O que me entristece é que, se o destino dos homens arrogantes for o mesmo do querubim arrogante, o que eles ouvirão ao final de suas vidas é: "te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer [...] em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem" (Ez 28).

É uma certeza quase matemática, que não tem como dar errado. Como registra Isaías 2.17, "A arrogância do homem será abatida, e a sua altivez será humilhada". Fico triste, realmente triste por causa dos arrogantes. Pois, em geral, foram bons cristãos no início, mas, com o passar do tempo, começaram de fato a acreditar que são mais do que os demais. Assim como Lúcifer era perfeito, mas deixou seu coração enganá-lo, o mesmo processo ocorre com todo arrogante. Seu fim, lamento crer, não será diferente. Se não for abatido nesta vida, será na próxima.

Entre os salvos de Deus não há arrogantes, há os mansos e humildes de coração. Se um arrogante é alcançado pela graça da cruz ele deixa de ser arrogante. Seus olhos perdem a altivez. Suas palavras abandonam o egocentrismo. Sua alma despreza os títulos e adjetivos. Seus projetos de projeção pessoal são postos de lado. Seu conforto passa a importar menos do que a obra de Deus. Suas ações passam a devotar-se ao ferido, ao doente e ao sofredor. A arrogância morre e em seu lugar brota o amor. Pois onde há amor não pode haver arrogância.

O arrogante prioriza a si se aos seus. O humilde prioriza o próximo. Simples e bíblico.

Termino aqui, com uma explicação. Não dediquei tantas linhas aos arrogantes para acusá-los. Mas, primeiro, para compartilhar meu entendimento bíblico de que não existem cristãos arrogantes, é um conceito impossível à luz das Escrituras: se é de fato cristão não pode ser arrogante, se é arrogante não é cristão. Segundo, para que você veja se tem seguido ou mesmo sido alguém altivo e soberbo. E, por fim, para que oremos pelos arrogantes. Devemos amar os tais e pedir que o Senhor os cure dessa doença tão maligna - para que vivam e parem de contagiar ou ferir os que estão ao seu redor. Oremos em especial para que venham a conhecer Cristo e tirem a si mesmos do altar. Não devemos desejar o mal dos arrogantes nem combater a arrogância com ataques, mas com oração e amor. Pois, se atacarmos os arrogantes com ferocidade e nossas próprias verdades, estaremos sendo tão arrogantes como eles.

Propor isso é muito arrogante de minha parte?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,


sábado, 12 de julho de 2014

Meu Deus, Obrigado por Não Responderes às Minhas Orações

Nenhum comentário:



Por Arno Froese e Dieter Steiger no Chamada

Muitas passagens na Bíblia nos mostram claramente que o silêncio de Deus foi a melhor resposta às orações. Em outros casos, as respostas dadas mostraram não ser o melhor para quem as pediu.

Jesus – o Filho de Deus

Vamos começar observando a mais terrível e chocante oração não-respondida da história da humanidade: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 27.46).

Esse questionamento por parte de Jesus tem um profundo significado para toda a humanidade. Em primeiro lugar, porque revela que Deus realmente Se manifestou na carne: "evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele (Deus) que foi manifestado na carne" (1 Timóteo 3.16). Além disso, ele também mostra que, de fato e de verdade, Jesus tornou-se 100% humano, estando inclusive sujeito à morte. Lemos em Filipenses 2.7-8: "Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz".

Jesus, o Filho de Deus, deixou Sua habitação de poder, autoridade e glória e tornou-se um homem de carne e osso. Pela Bíblia sabemos que Ele foi tentado como nós somos tentados. Ele sentia cansaço, fome e sede; sentia alegria, tristeza, insatisfação e compaixão. Mas com uma diferença: Ele não tinha pecado!

O mais inexplicável mistério na história da humanidade é Deus manifestado na carne. Essa declaração tem sido pedra de tropeço para muitos que não estavam realmente em busca da verdade. Um considerável número de religiões não crê em Jesus como o Filho de Deus. Seguidamente elas usam esta afirmação para justificar suas falácias, dizendo em tom de escárnio: "Se Jesus era Deus, então porque Ele orou ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’ Por acaso Ele estava orando para si mesmo?"

Uma pessoa honesta que ousasse fazer tal questionamento iria rapidamente encontrar a resposta estudando as Escrituras e aprenderia logo que Jesus de fato é Deus. Vamos analisar alguns exemplos:

Depois de Jesus ter curado um paralítico no tanque de Betesda, Seus inimigos Lhe fizeram a seguinte acusação: "e, porque ele disse isso, os líderes judeus ficaram ainda com mais vontade de matá-lo. Pois, além de não obedecer à lei do sábado, ele afirmava que Deus era o seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus" (João 5.18). Eles afirmavam que Jesus se fazia "igual a Deus".

Aqueles que escarneciam e acusavam Jesus ouviram-nO testemunhando que Ele era Deus, conforme lemos em Mateus 27.43: "...porque (Jesus) disse: Sou Filho de Deus".

Quando Jesus morreu, um centurião, do qual não sabemos o nome, declarou no versículo 54: "...verdadeiramente este era Filho de Deus"

Em João 20.28 lemos: "Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu!".

A Grande Resposta Silenciosa

O que teria acontecido se Deus tivesse respondido ao apelo do Senhor Jesus? O que teria acontecido se o Pai não tivesse abandonado o Filho? O que teria acontecido se Deus tivesse respondido ao desafio dos principais sacerdotes, escribas e anciãos quando disseram: "Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus" (Mateus 27.43)? A resposta é a terrível realidade do que nós merecíamos! Cada um de nós permaneceria morto em suas transgressões e pecados, abandonado por Deus por toda a eternidade! Não teria havido salvação para a humanidade! Efésios 2.12 demonstra claramente nossa posição desesperançada: "naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo".

Se o Pai celestial tivesse respondido à oração de Jesus na cruz, não haveria futuro para nós, mas um perpétuo e imensurável sofrimento além de uma morte eterna! Entretanto, as Escrituras continuam: "Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo" (v. 13). Assim sendo, para o nosso próprio bem, a melhor resposta para o clamor do Senhor Jesus foi o silêncio de Deus. Jesus deliberadamente veio à terra com o único propósito de redimir o homem caído. Sua vinda não foi um acidente ou o resultado de alguma circunstância invisível, mas fazia parte do plano eterno de Deus para a nossa salvação.

Se queremos ter um entendimento melhor do sacrifício supremo de Deus, precisamos ver a realidade de Suas intenções. Teremos um entendimento mais profundo para reconhecer Sua posição eterna ao nos ocupar com a Sua palavra. Para Deus nada acontece por acidente, nem existem coincidências. Deus não depende da nossa percepção de tempo porque Ele é eterno. Somente quando tivermos alcançado nosso destino final é que entenderemos o que é a eternidade.

Antes da Fundação do Mundo

Pedro amplia nossa visão sobre a vinda de Cristo: "mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós" (1 Pedro 1.19-20). Mesmo antes do homem ter caído em pecado, Deus, em Sua onisciência, estabeleceu um plano de salvação que foi manifesto com a vinda de Jesus. E até mesmo o evento real que aconteceu aqui na terra foi suplantado pela resolução eterna proclamada em Apocalipse 13.8:  "...do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo".

É virtualmente impossível entendermos essa incrível verdade apenas com o nosso intelecto limitado. Como algo pode ter ocorrido mesmo antes de ter se manifestado fisicamente aqui na terra? Não encontramos resposta se fizermos a pergunta nesse nível. Quem pode explicar intelectualmente a passagem: "...assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo..." (Efésios 1.4)? Podemos apenas perceber espiritualmente essa realidade quando a vemos pela perspectiva celestial. Para ilustrar esse fato, consideremos o seguinte exemplo:

Sabemos que o sol nasce no leste e se põe no oeste. Podemos determinar isso cientificamente através do uso de instrumentos que medem os movimentos do sol. Porém esse fato científico se tornaria nulo se viajássemos no espaço, pois lá as regras mudam, a lei do espaço vigoraria e veríamos que a Terra, na realidade, faz seu movimento de rotação em torno do próprio eixo, criando assim a ilusão de que o sol nasce no leste e se põe no oeste.

Jesus no Jardim

Para termos um entendimento melhor da morte voluntária de Jesus e do silêncio de Seu Pai em resposta à Sua oração, devemos primeiro olhar mais de perto aquela fatídica noite no Jardim Getsêmani:  "Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar; e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mateus 26.36-39).

Do ponto de vista humano, esse é um dos mais trágicos eventos do Novo Testamento. Lemos uma descrição detalhada do comportamento do Senhor antes de Sua prisão, que resultou em Sua condenação e posterior execução na cruz do Calvário.

Jesus levou consigo Seus discípulos mais próximos, dos quais Pedro era o mais chegado. Lembre-se que pouco tempo antes Pedro jurara solenemente ser um fiel seguidor de Jesus, mesmo que isso lhe custasse a própria vida: "Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei..." (v. 35). Pedro fez uma declaração corajosa ao afirmar abertamente que seguiria Jesus mesmo que tivesse de morrer por isso.

Pedro Falhou

O Senhor já havia informado a Pedro que Ele teria de morrer para que as Escrituras se cumprissem. Pedro entendeu isso, porque anteriormente havia identificado o Senhor como sendo "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mateus 16.16). A confissão de Pedro deu-se num lugar chamado Cesaréia de Filipe, onde Jesus perguntou a Seus discípulos: "Quem diz o povo ser o Filho do Homem?" (Mateus 16.13). É óbvio que Pedro sabia que a palavra profética tinha de ser cumprida. Ele não tentava mais defender Jesus, mas sabia que a morte era inevitável. Veja que ele disse: "Ainda que me seja necessário morrer contigo..." O fato de que Jesus teria de morrer já havia sido entendido, e o que restava agora era uma questão de fidelidade ao Senhor. Pedro permaneceria fiel até o fim?

De acordo com a Palavra de Deus sabemos que ele não o fez. Pedro negou ao Senhor, não apenas uma, nem duas, mas três vezes, como Jesus profetizou que ele faria.

No Getsêmani

Agora vamos focalizar nossa atenção no Senhor que foi até o jardim chamado Getsêmani, afastando-Se dos discípulos e ficando apenas com Pedro e os dois filhos de Zebedeu a Seu lado. Quando Ele ficou sozinho, mais tarde, "adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando..." (Mateus 26.39). Qual foi a Sua oração? "..Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres" (v. 39). Jesus não recebeu resposta. O Pai ficou em silêncio. Jesus voltou até onde estavam os Seus discípulos: "...E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca" (vv. 40-41). Algo muito natural tinha acabado de acontecer: a carne dos discípulos não estava disposta e nem era capaz de resistir aos ataques de Satanás.

Não sabemos quanto tempo o Senhor orou, mas deve ter sido durante pelo menos uma hora, se nos basearmos na afirmação: "Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?" Apesar da promessa determinada de Pedro de morrer com o Senhor, ele já havia se afastado da batalha que acontecia no Getsêmani.

A Oração Contínua de Jesus

"Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade" (v. 42). Novamente não houve uma resposta do Pai, apenas silêncio. Jesus deu aos discípulos outra chance: "...voltando, achou-os outra vez dormindo; porque os seus olhos estavam pesados" (v. 43). Desta vez o Senhor não os acordou nem deu outra instrução. Ao invés disso, lemos que Ele: "...Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras" (v. 44).

A Agonia

Ao lermos o relato no evangelho de Marcos notamos que o evento é descrito de uma forma um pouco diferente. Entretanto, Lucas revela que após Jesus ter orado, "...lhe apareceu um anjo do céu que o confortava" (Lucas 22.43). Não nos é revelado como ele O "confortava", mas no versículo seguinte lemos que Suas orações tornaram-se ainda mais desesperadas: "E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra" (v. 44).

Quando analisamos esse fato de uma perspectiva humana, ele parece-nos ilógico, porque o versículo anterior diz que Jesus acabara de ser consolado por um anjo do céu, continuando a batalhar em oração a tal ponto que "gotas de sangue" caíram sobre a terra. Foi o consolo do anjo uma resposta à Sua oração ou esse consolo era necessário para que Ele continuasse orando? Creio que a segunda opção é a correta, como veremos ao examinarmos mais detalhadamente essa situação.

A Tentação no Getsêmani

Normalmente se interpreta que Jesus, como Filho do Homem, em carne e osso, tinha medo da morte como qualquer outro ser humano. Assim sendo, não seria surpresa que Jesus orasse que "este cálice", representando a morte na cruz, fosse passado d’Ele. Entretanto, tal interpretação não corresponde a versículos como os do Salmo 40.7-8: "Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei". Jesus se agradava em fazer a perfeita vontade de Deus, a qual foi estabelecida antes da fundação do mundo.

Para estar certo de que Davi não estava falando de si mesmo nesta passagem, encontramos a confirmação em Hebreus 10.7,9,10: "Então, eu disse: Eis aqui estou (no rolo do livro está escrito a meu respeito), para fazer, ó Deus, a tua vontade... então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer o segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas". Se olharmos a oração de Jesus no Jardim Getsêmani como um sinal de fraqueza, apesar d’Ele ter sido consolado por um anjo, tal comportamento iria contradizer a passagem profética que acabamos de ler.

Como Cordeiro Para o Matadouro

Consideremos o texto de Isaías 53.3,5 e 7: "Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso... Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados... Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca".

Como um cordeiro, Jesus foi levado para o matadouro; Ele permaneceu em silêncio como uma ovelha.

Morte no Getsêmani?

Essas passagens das Escrituras nos dão razões para crer que algo mais tenha acontecido no Jardim Getsêmani quando Jesus orou para que "este cálice" pudesse ser passado dEle. Essa seria uma oração desnecessária, uma exibição de fraqueza e indecisão, mas tal quadro não corresponde à descrição completa do Messias.

Enquanto aparentemente o Pai ficou em silêncio diante da tríplice oração de Jesus, as Escrituras documentam que Sua oração, na verdade, foi respondida. Hebreus 5.5 fala de Cristo como o sacerdote da ordem de Melquisedeque: "assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei".

O versículo 7 contém a resposta a essa oração: "Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade". O Getsêmani foi o único local onde Jesus pediu que Sua vida fosse poupada; Jesus não morreu no Jardim Getsêmani.

O silêncio aparente de Deus diante da oração de Jesus no Jardim foi, como vimos, uma clara resposta a essa oração. Desse ponto de vista, entendemos que a oração de Jesus não foi para que Sua vida fosse poupada na cruz do Calvário. A oração de Jesus foi ter sua vida poupada para que não morresse ali no Jardim Getsêmani. Ele estava destinado a morrer na cruz do Calvário para tirar os pecados do mundo.

O que aconteceu no Jardim Getsêmani? Pelo que já vimos, é claro que os poderes das trevas e mesmo a morte estavam prontos a tirar a vida de Jesus ali mesmo naquela hora. Em Mateus 26.38 lemos: "Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo". Marcos 14.34 revela: "...E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte..."

Mesmo que Jesus não tenha morrido fisicamente no Jardim Getsêmani, Ele foi certamente obediente até à morte; Ele experimentou a morte dupla de um pecador condenado! Ele foi "obediente até à morte e morte de cruz" (Filipenses 2.8).

Quando Deus Não Responde

Esta análise da vida de oração de nosso Senhor antes de Sua crucificação deveria nos ensinar que as respostas às nossas orações podem nem sempre ser o mais importante. Podemos passar por derrotas, doenças, tragédias e catástrofes. Mas o que realmente deve ser lembrado é que somos de Cristo.

Creio que é por essa razão que, ao falar de provas e tribulações, o apóstolo Pedro exclamou triunfante: "Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (1 Pedro 1.6-7).

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Matrix e Sua Filosofia Pós-Moderna

Nenhum comentário:



Por Samuel Costa em Chamada

"Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? E se você fosse incapaz de se acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?" (Morfeu questionando Neo, Filme Matrix).

Se vivemos em um mundo que nada mais é do que uma Matrix ilusória, então faço minhas as palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, em O Artista Inconfessável: "Fazer o que seja é inútil. Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer mais vale o inútil do fazer"! Se vivemos em um mundo inverossímil e somos todos apenas parte de um programa de computador, então desabafo indignado: triste sorte a nossa, homens desgraçados que somos, será que não nascemos para alguma coisa melhor?! Se a filosofia pós-moderna, o hinduísmo, o budismo e a trilogia Matrix estão corretos em afirmarem que o nosso mundo é irreal, então, meus queridos irmãos, o niilismo [1] está em alta, Deus morreu, a realidade está em crise e eu também não estou lá muito bem!

A filosofia pós-moderna

Ninguém sabe por certo quando a pós-modernidade começou. Alguns afirmam que sua origem foi no início do século XX, outros dizem que foi na metade do século XX e outros asseguram que foi no início da década de 1980. Porém, uma coisa é certa: diversos analistas culturais afirmam que, apesar de não sabermos quando esta era começou, estamos de fato vivendo em uma sociedade pós-moderna. Mas, o que é pós-modernidade?

O termo "pós-modernidade" é de ampla definição e foi cunhado pelo famoso historiador britânico Arnold Joseph Toynbee (1889-1975) na década de 1940, quando escrevia os seus doze volumes intitulados Um Estudo da História. Toynbee era um filósofo católico, porém influenciado pelo hinduísmo. Segundo Toynbee, a pós-modernidade se caracteriza especialmente pela decadência da cultura ocidental, do cristianismo e de tudo o que é absoluto. Resumindo, no pós-modernismo, morre o cristianismo e sua única verdade absoluta (Jesus Cristo) e tudo passa a ser relativo.

Alguns filósofos franceses também debruçaram-se sobre o tema da pós-modernidade, entre eles, Jean-François Lyotard, Michel Maffesoli e Jean Baudrillard (cujo livro Simulacro e Simulação aparece rapidamente no filme Matrix). Baudrillard afirma que nos tempos pós-modernos ocorrerá o "domínio do simulacro" onde será possível a substituição do mundo real por uma versão simulada tão eficaz quanto a realidade. Em outras palavras, a simulação cria um perfeito simulacro da realidade, como um sonho tão vívido que, ao "acordarmos", não conseguimos distinguir entre ilusão e verdade.

A trilogia Matrix

A trilogia Matrix está em plena sintonia com a filosofia pós-moderna, com o hinduísmo, com o budismo, entre outras visões de mundo.

A série Matrix é uma fantástica aventura cibernética, recheada de superefeitos especiais, onde a Terra foi totalmente dominada por máquinas dotadas de inteligência artificial, que passaram a ter controle sobre a raça humana. Os homens e todo o nosso mundo não passam de um software, um programa de computador, uma mera ilusão. Resumindo, nessa trilogia, nosso complexo mundo físico, com todos os seus ecossistemas, e nosso sofisticado corpo humano não passam de uma realidade virtual, como um joguinho de computador, semelhante ao The Sims, Sim City ou Age of Empires.

Matrix também tem uma forte analogia com o cristianismo. Existe uma trindade benigna no filme, composta por Trinity ("Trindade", em inglês), Morfeu ("deus dos sonhos" na mitologia grega. Ele faz o papel de João Batista ao preparar o caminho para o "escolhido" e o de Deus Pai ao assumir a figura paterna de todos que já foram libertos da ilusão) e Neo (do grego "novo". Esse é o "escolhido" e um substituto para Jesus Cristo).

Na primeira aparição de Neo ficamos logo sabendo qual será sua função na trilogia. Choi, um cliente de Neo, chega ao quarto de Neo com alguns amigos para pagar e receber uma encomenda. Ele lhe agradece de uma maneira que passa a ser quase uma profecia sobre o futuro de Neo: "Aleluia. Você é meu Salvador, cara. O meu Jesus Cristo pessoal". No primeiro filme da série, há mais de dez referências a Neo como o "eleito" ou o "escolhido". No primeiro episódio, Neo morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus (isso faz você se lembrar de quem?).

Em Matrix Reloaded, o segundo episódio da série, há uma cena rápida de mais ou menos vinte segundos, quando Neo sai de um elevador na "Cidade de Zion" ("Sião", em inglês) e é abordado por pessoas de várias faixas etárias, muitas com trajes orientais e trazendo oferendas nas mãos. Trinity lhe diz: "Eles precisam de você". Duas mães se aproximam de Neo fazendo alguns pedidos especiais sobre seus filhos. Neo é querido, respeitável e um solucionador de problemas.

Neo move-se com uma rapidez incrível (mais rápido do que o Super-Homem ou qualquer projétil), salva pessoas prestes a serem mortas, tem uma força incomum, tem capacidade para mover objetos sem tocá-los e, a exemplo de Jesus Cristo, também ressuscitou uma pessoa amada. Pronto: "Neo é o nosso melhor amigo e o nosso salvador", essa é uma das mensagens sutis que a trilogia passa nas suas entrelinhas.

Porém, a principal mensagem da trilogia é um novo conceito da "verdade". Nessas películas cinematográficas, a "verdade" é que este mundo é apenas uma matrix ilusória. Observe um diálogo entre Morfeu e Neo e veja o que é a "verdade":

Neo: O que é Matrix?

Morfeu: Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte [...] é o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.

Neo: Que verdade?

Morfeu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.

Quando Neo vai consultar o oráculo, ele encontra um menino em trajes budistas que consegue entortar colheres sem tocá-las. Observe no diálogo o que é a "verdade":

Menino: Não tente dobrar a colher. Não vai ser possível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.

Neo: Que verdade?

Menino: Que a colher não existe.

Neo: A colher não existe?

Menino: Então verá que não é a colher que se dobra, apenas você.

Para a série Matrix, a "verdade" é que tudo é niilismo e ficamos sem saber quem é o Criador e quem é a criatura.

O cristianismo

Cristo é real (Colossenses 2.17). Não existe faz-de-conta e nem ilusão em Cristo Jesus. Digo mais: a realidade de Cristo é dura, cruenta e exigiu derramamento de sangue na cruz para a remissão dos nossos pecados. O evangelista João escreveu: Jesus "estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens" (João 1.2-4).

Analise bem o que está escrito nessa passagem. Jesus não é apenas o Criador de todas as coisas juntamente com Deus Pai, mas especialmente Jesus é VIDA. Pense bem: sem a vida, só resta a morte. O período compreendido entre o nascimento e a morte, que chamamos de existência, pertence ao Senhor Jesus Cristo. O fato de vivermos, o prazer de termos sinais vitais, é fruto do maravilhoso Jesus. Desculpe a redundância, mas a existência só existe porque Jesus existiu primeiro. Afirmar que Jesus é uma razão para viver é minimizar o Seu senhorio, é pouco. Verdadeiramente, Jesus é a razão para viver. Jesus é o único "show da vida"!

Analisemos outra passagem bíblica sobre a soberania e o senhorio de Jesus Cristo: "Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. E ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus" (Colossenses 1.15-20).

Pense bem no que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, está afirmando sobre Jesus Cristo: todas as coisas subsistem por causa de Cristo. Todo o mundo visível e o invisível – ambas as dimensões (a física e a espiritual) existem por causa de Cristo. Os hadrons e quarks subsistem pelo poder dEle. Sem Jesus, todas as coisas cairiam aos pedaços. A vida (o nosso próximo batimento cardíaco e a nossa próxima respiração) está nas mãos do Senhor Jesus Cristo. Jesus é o máximo e detém um poder inigualável. Jesus é o verdadeiro "espetáculo do planeta Terra"!

Queridos leitores, sem Jesus, restam a filosofia pós-moderna, o hinduísmo, o budismo e a trilogiaMatrix para nos "consolar" e esse consolo é baseado em uma ilusão.

Conclusão

Quando o indivíduo não conhece o original, o real, o genuíno, o verdadeiro, ele acredita no falso como se fosse o verdadeiro.

Imagine as pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer pessoalmente a Michelângelo, viram-no pintando e esculpindo obras maravilhosas que ficariam para a posteridade. Ou, até mesmo, pense naqueles que não tiveram a oportunidade de vê-lo pessoalmente, mas estudaram com afinco seus feitos. Agora, suponha que surja alguém lá no Nepal afirmando que possui a verdadeira escultura de "Davi", de Michelângelo, e que aquela exposta no Museu da Galleria dell’Accademia, em Florença, na Itália, é falsa e não passa de um simulacro.

O que você acha que aconteceria? As pessoas que conhecem bem a escultura verdadeira dificilmente acreditariam na história do "Davi" do Nepal. Pois, uma vez que o indivíduo conhece o real, ele facilmente reconhece que o outro é o falso e o infiel. Porém, se alguém não conhece a única e verdadeira escultura, facilmente será enganado e iludido pela falsa "verdade".

Jesus é assim, a única verdade! Ele disse: "Eu sou a verdade" (João 14.6) e "a verdade que liberta" (João 8.32).

A trilogia Matrix e a filosofia pós-moderna, além de fazerem parceria com religiões orientais, são também como Pilatos. O registro em João 18.37-38, quando Jesus dialogava com Pilatos, diz: "Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Nesse exato momento, Jesus foi interrompido por Pilatos, que Lhe fez uma pergunta que era mais uma tentativa de alfinetá-lO. Nela, Pilatos torna relativa a verdade exclusiva de Jesus com o seu célebre questionamento: "Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?". Na seqüência, ele deu as costas a Jesus e se dirigiu à multidão. Pilatos passou batido pela vida, sem reconhecer Jesus como a única Verdade.

À medida que afrouxamos a doutrina e aceitamos outras verdades além de Jesus Cristo, acabamos caindo no engodo de vãs filosofias humanas. Ficamos à deriva, passando a aceitar e discutir "a minha verdade" e "a sua verdade", e não mais a única Verdade, que é Jesus Cristo. Quando o homem não conhece Jesus, passa a criar outras supostas verdades filosóficas para se adequarem aos seus pontos de vista.

Dar as costas para a Verdade e ouvir o clamor das massas, dos filósofos e formadores de opinião da época, é o que faziam os crentes da pós-modernista cidade de Corinto. Foi em Corinto que Paulo dissertou sobre a excelência da sabedoria divina sobre a sabedoria humana (veja 1 Coríntios 1.18-31). A recomendação paulina aos coríntios continua vívida para a nossa atual cultura pós-moderna:

"Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Coríntios 3.11). Amém!


(Dr. Samuel Fernandes Magalhães Costa)

Notas

[1] Niilismo - Filosofia: Doutrina segundo a qual nada existe de absoluto. Ética: Doutrina segundo a qual não há verdade moral nem hierarquia de valores. Política: Doutrina segunda a qual só será possível o progresso da sociedade após a destruição do que socialmente existe. (Novo Dicionário Aurélio).